Michel Foucault faria 100 anos em 2026. Morto em 1984, o filósofo francês não conheceu a internet, as redes sociais nem os algoritmos que selecionam o que as pessoas veem e desejam. Ainda assim, suas perguntas sobre poder, verdade, liberdade, desejo e formação dos sujeitos continuam sendo usadas para examinar o presente.
A avaliação é de Marcio Tavares d’Amaral, filósofo, poeta e professor titular emérito da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Para ele, a permanência de Foucault não depende da preservação literal de suas ideias, mas da capacidade que elas ainda têm de provocar inquietação.
O sujeito moldado pelo consumo
Na análise, as formas atuais de governo estão ligadas à globalização neoliberal de mercado. Esse sistema enfraqueceria o trabalho de cada pessoa sobre si mesma, entendido como uma dimensão ética da formação dos sujeitos, e produziria operacionalmente o sujeito-consumidor.
Nesse processo, a vontade de consumo aparece como um simulacro de desejo. A satisfação oferecida pelo mercado atenderia a necessidades criadas pelo próprio mercado, sem necessariamente constituir prazer. O resultado seria um sujeito afastado de um desejo de verdade e com menor capacidade de conexão consigo mesmo e com os outros.
Foucault chamava de governo o conjunto de mecanismos, técnicas, práticas, tecnologias e saberes-poderes que, em cada época, conduzem as condutas daqueles que se apresentam como sujeitos. Esses sujeitos são também assujeitados, mas podem encontrar resistência quando experimentam o caráter intolerável da situação em que vivem.
Governo, sujeito e resistência não aparecem como absolutos ou universais. São práticas éticas, políticas e estéticas que existem no aqui e agora e precisam ser analisadas em suas circunstâncias.
Identidade e alteridade
Para d’Amaral, o desejo necessário ao trabalho de si está enfraquecido. A inquietação que resta ao sujeito-assujeitado seria o sofrimento de viver segundo um simulacro de desejo, acompanhado pela busca de uma satisfação oferecida pelo consumo.
Esse enfraquecimento também abriria espaço para as pautas identitárias. Foucault provavelmente não as apoiaria no plano teórico de suas genealogias, porque a identidade, em seu pensamento, funciona como uma máquina de exclusão do outro. No campo ético, político e estético, porém, poderia acompanhar esses movimentos por sua oposição ao governo e ao mercado.
A reivindicação de identidades tradicionalmente subalternizadas pode, nessa leitura, fazer emergir alteridades dentro do próprio dispositivo de poder. Mulheres, pessoas LGBTQIA+ e pessoas negras aparecem como grupos que reivindicam diferenças de corpos, desejos e prazeres.
O desafio está em evitar que esses movimentos se fechem em novas bolhas. As redes sociotécnicas funcionariam como mecanismos de poder ao excluir diferenças e reforçar identidades fixas. A lógica das bolhas também poderia atingir movimentos organizados em torno do lugar de fala, reduzindo sua capacidade de produzir outras identidades e novas relações de força.
Redes sociais e lutas do presente
Os movimentos identitários precisam, segundo a análise, aprender a jogar com o poder e a escapar das estruturas que tentam absorvê-los. A interseccionalidade é apresentada como uma experiência por meio da qual alguns desses movimentos começam a lidar com esse problema.
Entre as estratégias possíveis estão deslocamentos, alianças, invisibilidades protetoras, explosões súbitas e seus refluxos. A proposta é evitar a cristalização de identidades pré-constituídas e abrir espaço para alteridades em um ambiente marcado por polarizações e pelo ódio como emoção dominante.
Essa tarefa exigiria diagnosticar e inquietar o presente, identificando as forças que organizam as lutas sociais. Sem isso, os movimentos poderiam se limitar a uma reivindicação abstrata de direitos humanos, enquanto o próprio governo usaria esses direitos para se fortalecer.
Uma erótica de resistência
Como possibilidade de ação crítica, d’Amaral propõe uma erótica relacionada à dimensão ética do trabalho final de Foucault, especialmente em O uso dos prazeres e O cuidado de si. A ideia seria recuperar práticas, técnicas de si e experiências capazes de enfrentar o enfraquecimento do desejo produzido pela vontade de consumo.
Nessa perspectiva, o corpo entra em jogo contra o mercado que esvazia o sujeito de desejo. Uma erótica de resistência poderia apoiar movimentos que afirmam diferenças e procuram estabelecer relações fora da lógica estrita do consumo.
A proposta não oferece um mapa nem um comando central. Ela depende de iniciativas múltiplas, que podem se aproximar, se separar, atrair-se ou repelir-se. Resistências pontuais poderiam encontrar conexões sem formar uma estrutura única ou uma acolhida pacífica.
O objetivo seria deslocar a pressão exercida sobre o desejo reduzido ao consumo, inclusive ao consumo de corpos moldados pelas redes. Com isso, poderiam surgir relações e alteridades capazes de reabrir espaço para uma subjetividade desejante fora do mercado e para uma expectativa de prazer não recortada pela dominação.








