Em Roma, Madri e Lisboa, o calendário registrou uma mudança incomum em 1582: depois da quinta-feira de 4 de outubro veio a sexta-feira de 15 de outubro. A sequência dos dias da semana continuou normal; o que mudou foi o número usado para identificar a data seguinte.
A alteração foi promulgada pelo papa Gregório XIII para aproximar o calendário das estações. O calendário juliano calculava a duração média do ano em 365,25 dias, enquanto o ano tropical é cerca de onze minutos menor. Essa diferença, embora pequena a cada ano, se acumulou ao longo dos séculos.
A relação com a Páscoa
No século XVI, o equinócio usado como referência para cálculos religiosos já acontecia vários dias antes da data esperada. O descompasso afetava especialmente a determinação da Páscoa, uma das razões para a reforma do calendário.
Para corrigir a posição das datas em relação ao ciclo sazonal, foram eliminados dez dias nos territórios que adotaram a mudança de imediato. Isso não significou que as pessoas tivessem vivido dez dias a mais ou que acontecimentos tivessem sido apagados. A numeração foi ajustada para registrar o dia seguinte.
A regra dos anos bissextos
O calendário gregoriano manteve como bissextos os anos divisíveis por quatro, mas estabeleceu uma exceção para os anos de século. Nesses casos, o ano só recebe 29 de fevereiro quando também é divisível por 400. Por essa regra, 1600 e 2000 foram bissextos; 1700, 1800 e 1900 não foram.
A correção reduziu o erro médio, embora não o eliminasse completamente. A mudança também não foi adotada de uma só vez. Países católicos fizeram a transição primeiro, enquanto muitos territórios protestantes e ortodoxos esperaram décadas ou séculos.
A Grã-Bretanha e suas colônias, por exemplo, só ajustaram o calendário em 1752, retirando onze datas. Por isso, documentos antigos podem apresentar datas diferentes para um mesmo acontecimento, dependendo do calendário adotado. Para compará-los, é necessário considerar o lugar, a época e a convenção usada.
A reforma mostra que o calendário combina observação astronômica e decisão social. Autoridades religiosas e civis aplicaram a mudança, enquanto comércio, impostos, aniversários e contratos precisaram seguir funcionando com a nova numeração.







