Durante a reforma, Marina e o marido descobriram a fachada preservada de uma antiga mercearia dentro da sala da casa. O reboco caiu em placas e revelou letras azuis sobre fundo amarelo, desenhos de latas e preços escritos à mão. A parede não aparecia nas fotografias recentes nem na escritura do imóvel.
Antes de continuar a demolição, o casal interrompeu a obra para entender a origem da estrutura e procurar pessoas que ainda se lembrassem do comércio. A investigação mostrou que a sala atual havia sido, décadas antes, um recuo aberto para a rua, onde funcionava a Mercearia Estrela.
Quando a mercearia fechou, novos proprietários construíram outra parede alguns metros à frente. A antiga entrada foi incorporada ao interior da residência, enquanto o letreiro ficou protegido entre camadas. Marcas de dobradiças indicavam a posição da porta, e uma faixa mais lisa apontava o local onde o balcão ficava encostado na fachada.
Pistas sobre a antiga mercearia
Os anúncios pintados citavam embalagens que deixaram de circular. Um calendário incompleto conservava dois algarismos do ano, e uma ficha de entrega encontrada sob uma prateleira trazia um sobrenome e um número de rua. Marina fotografou os elementos antes de retomar qualquer intervenção.
Uma busca em jornais digitalizados localizou um anúncio da Mercearia Estrela na década de 1950. A confirmação ajudou a relacionar a pintura e os objetos encontrados à antiga atividade comercial, embora não houvesse uma data completa para a fachada.
O casal também mostrou uma fotografia a moradores mais velhos, sem apresentar uma conclusão pronta. Três pessoas reconheceram o nome Estrela. Uma senhora contou que comprava pão no local a caminho da escola e descreveu potes de vidro alinhados no balcão. Outro morador lembrou que o dono anotava as compras em um quadro perto da porta.
As lembranças coincidiam com as marcas na parede. Pequenos círculos correspondiam a suportes de prateleiras, enquanto um retângulo escuro tinha as dimensões de um quadro. A senhora ainda identificou o sobrenome da ficha de entrega. Tratava-se do filho do comerciante, que vivia em outra região e guardava fotografias do estabelecimento.
Preservação durante a obra
O filho chegou com um álbum e reconheceu a pintura. Em uma das imagens, crianças apareciam diante da mercearia, e a posição das letras correspondia ao trecho revelado. A fotografia também mostrou que parte do anúncio havia sido repintada depois de uma mudança de fornecedor, o que explicou a sobreposição de duas cores.
Ele contou que o balcão foi vendido quando o pai adoeceu e que a família não sabia se o letreiro havia permanecido. O filho entregou cópias digitais das fotos e ajudou a identificar antigos clientes, sem pedir a retirada da parede nem reivindicar objetos.
Para decidir como seguir, Marina e o marido chamaram um profissional, que avaliou estabilidade, umidade e camadas de tinta. Eles também consultaram orientações sobre preservação de bens materiais, sem afirmar que a parede tivesse proteção formal. Amostras soltas foram guardadas em envelopes identificados, e as etapas receberam fotografias com escala e data.
A equipe removeu apenas o reboco solto, estabilizou as bordas e mudou a passagem elétrica planejada. A fachada ficou visível atrás de uma divisória de vidro, afastada de móveis e de pontos sujeitos a vapor. Raspar toda a superfície para deixar as cores novas poderia destruir partes originais.
A reforma terminou com a sala menor do que o previsto inicialmente. Na inauguração, antigos clientes voltaram ao endereço e reconheceram pontos da fachada. Marina colocou ao lado do vidro uma legenda com o período aproximado e as incertezas restantes. A iluminação indireta foi escolhida para não aquecer a pintura, e o casal passou a registrar anualmente fissuras e mudanças de cor.
Os relatos dos antigos clientes foram arquivados separadamente. A parede continuou pertencendo à casa, mas passou a registrar uma etapa anterior do imóvel e a explicar as proporções incomuns daquele cômodo.







