O pesquisador Rodrigo Simon de Moraes encontrou, entre 50 quilos de papéis do arquivo pessoal de Ricardo Guilherme Dicke, contos que o escritor considerava destruídos por cupins. O material foi reunido em Música de Mortos Suaves, organizado postumamente, e apresenta textos provavelmente escritos antes de 1967, quando Dicke publicou seu primeiro livro.
A descoberta ocorreu durante o doutorado de Moraes em teoria e história da literatura na Unicamp, defendido em 2021. Inicialmente interessado nas pinturas do escritor, ele entrou em contato com Ariadne, filha de Dicke, e soube da existência de um grande conjunto de papéis deixado pelo pai. Três dias depois, o pesquisador estava em Cuiabá, onde recebeu autorização para levar o material.
O caderno e as versões datilografadas
Entre os documentos havia um caderno de espiral, de cor ocre, com textos manuscritos. Como a caligrafia estava difícil de decifrar e o papel quase se desfazia, Moraes passou a examinar os documentos datilografados. Foi ao comparar as duas formas que percebeu a relação entre elas e concluiu que os contos haviam sido preparados para publicação.
A coletânea reúne 14 histórias. Duas ficaram fora porque já tinham sido publicadas. “Tríptico de Frei Dámaso”, sobre um possível triângulo amoroso entre dois frades e uma fiel, aparece de forma modificada no romance Caieira. Ainda assim, Moraes decidiu incluir o conto no livro por considerar que sua versão original permanecia inédita.
As narrativas apresentam personagens solitários, imagens da morte e uma presença constante da natureza. Em “Vigília”, por exemplo, a chuva aparece como “um desespero”, enquanto o cemitério é descrito como uma “floresta de cruzes”. Em “Entardecer, Domingo”, o narrador acompanha a percepção de um personagem latino-americano e usa expressões que lembram o espanhol.
Uma obra distante do circuito editorial
Ricardo Guilherme Dicke nasceu na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, em 1936, e passou a morar em Cuiabá aos seis anos. Morreu em 2008. Sua produção inclui romances extensos e uma linguagem marcada por experimentações, características que dificultaram sua circulação em um mercado mais afeito a livros menores.
Hilda Hilst definiu a prosa do autor como tendo uma “oleosidade fascinante” e também a chamou de “impressionantemente prolixo”. Para Moraes, a publicação dos contos mostra que Dicke conseguia preservar essa linguagem ornamental mesmo em narrativas curtas.
A distância de Cuiabá em relação às editoras e aos centros culturais também aparece como um dos fatores que contribuíram para o esquecimento do escritor. “Ele acaba esquecido”, afirma Moraes, pesquisador na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
Em 1967, Dicke recebeu menção honrosa no Prêmio Walmap pelo romance Deus de Caim. O júri era formado por Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto. Durante o período em que viveu no Rio de Janeiro, ele escreveu também Caieira, publicado em 1978, e Madona dos Páramos, lançado em 1981, já depois de seu retorno a Cuiabá.
Madona dos Páramos recebeu o Prêmio Ficção de Brasília, da Fundação Cultural do Distrito Federal. A obra, com 518 páginas, acompanha 12 foragidos pelo sertão do Centro-Oeste brasileiro. O romance foi comparado a Grande Sertão: Veredas, de 1956, embora Dicke trabalhe com um vocabulário conhecido, empregado de maneira particular.
Os contos antes da obra madura
A influência do espanhol nos textos pode estar relacionada ao casamento de Dicke com a uruguaia Adélia Boskov Todorov, em 1961. Em cartas para a mulher, ele misturava os dois idiomas. Moraes também encontrou uma tradução para o português, feita por Dicke, de um conto do venezuelano Rómulo Gallegos.
O próprio escritor acreditava que os contos tinham sido destruídos durante a temporada de chuvas do Mato Grosso. Em entrevista de 1994, ao comentar a perda, disse: “Quase chorei de tristeza!”. A localização do material indica que o conjunto sobreviveu sem que Dicke soubesse disso.
Dicke morreu sem ver uma nova edição de Madona dos Páramos, que considerava seu melhor trabalho. Está enterrado no Cemitério da Piedade, em Cuiabá. No túmulo, há uma inscrição associada a Cerimônias do Esquecimento, de 1995: “Deus é um grande mágico que fabrica realidades”.







