PORTO ALEGRE — Atrás do muro alto da avenida Loureiro da Silva, na Cidade Baixa, 20 irmãs vivem uma rotina de oração, trabalho e contemplação. O movimento da cidade continua audível do lado de fora, com carros, ônibus, caminhões, vozes e buzinas, mas dentro do Carmelo o dia segue outro ritmo.
A clausura, explicam as religiosas, não é uma prisão nem uma fuga da realidade. É uma escolha feita livremente, como resposta a um chamado vocacional. As irmãs permanecem no mosteiro por decisão própria e renovam esse compromisso nas situações concretas do cotidiano.
Uma rotina feita de tarefas simples
A vida no Carmelo inclui oração pessoal e comunitária, refeições, descanso, costura, artesanato, cuidados com a casa e trabalho na horta. As irmãs também convivem, riem, têm momentos de recreação e enfrentam dias difíceis. A contemplação não as afasta das pequenas tarefas: é na rotina que procuram exercitar a paciência, o perdão, a caridade e o serviço.
O silêncio também não significa ausência completa de conversa. Há momentos de convivência e lazer, mas as religiosas procuram discernir quando falar, quando calar e quando escutar. Na Quaresma, as restrições à comunicação são mais severas, em um período descrito como um retiro fechado e profundo. No Advento, elas também podem falar, embora sigam as regras da clausura.
A oração ocupa o centro dessa experiência, mas nem sempre é fácil ou consoladora. Há dias de aridez, em que as palavras não surgem e resta apenas permanecer em silêncio. A contemplação, para as irmãs, está ligada à permanência diante de Deus mesmo quando não conseguem perceber sua presença.
“Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais escondidas da vocação carmelitana”, diz uma das religiosas. As monjas rezam por pessoas que sofrem, famílias, jovens, doentes, pessoas que buscam sentido para a vida e também por quem nunca saberá que alguém intercedeu por ele.
Acesso limitado e contato com familiares
Tudo o que acontece no Carmelo pode ser divulgado, mas o acesso de pessoas de fora é restrito, com exceção de serviços extraordinários que as freiras não conseguem realizar. Existe uma igreja ou capela na área, aberta a quem quiser participar das missas: de segunda a sexta-feira, às 7h, e aos sábados e domingos, às 8h.
As conversas com visitantes ocorrem no locutório, um espaço separado. Familiares podem ser recebidos, mas não entram nas áreas internas. Com parentes, as religiosas falam em ocasiões especiais, por necessidade ou doença. As que moram longe podem ligar eventualmente.
Os quartos, chamados de celas, são individuais. Ali, as irmãs dormem, descansam ou fazem suas orações pessoais. Elas saem do Carmelo apenas para eventuais consultas médicas. Algumas têm acesso ao telefone celular por designação da madre, mas não acompanham todas as informações do mundo exterior. Visitas a familiares podem ocorrer em casos excepcionais, como uma doença.
A superiora afirma que as irmãs são felizes dentro da realidade que escolheram. Elas fizeram votos de castidade, obediência e pobreza e aceitaram seguir as regras da comunidade. A liberdade, nesse contexto, é compreendida como a possibilidade de permanecer fiéis ao chamado que discerniram.
História do mosteiro
O Carmelo é vinculado à Ordem da Bem Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, cuja tradição tem como fundadores Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. A espiritualidade reúne contemplação, comunhão fraterna, abnegação evangélica e espírito apostólico, com dedicação ao amor e ao culto à Virgem Santíssima.
O mosteiro foi fundado em 1839 pela portuguesa Madre Joaquina de Jesus. Quando precisou fugir com a família para a Inglaterra por causa da invasão francesa, ela tinha 16 anos. Mais tarde, veio para o Brasil e conseguiu trazer consigo as obras de Santa Teresa de Jesus.
A primeira capela do mosteiro foi inaugurada em 1846, e a estrutura definitiva ficou pronta em 1857. Em 6 de novembro de 1857 ocorreu a inauguração da capela atual. Com a aprovação da autoridade eclesiástica, Madre Joaquina e suas 10 companheiras começaram a viver em regime de claustro em 8 de dezembro daquele ano.
Madre Joaquina morreu em 18 de novembro de 1862. A aprovação da Santa Sé foi concedida em 12 de janeiro de 1863, e os primeiros votos religiosos foram pronunciados no Carmelo em 24 de maio do mesmo ano.
A tradição carmelita remonta aos eremitas que viviam no Monte Carmelo, na Terra Santa, durante o século 12. Eles buscavam oração e silêncio e receberam uma regra oficial de Santo Alberto entre 1206 e 1214. O ramo feminino foi formalizado entre 1451 e 1471, e a ordem passou por uma reforma no século XVI com Santa Teresa de Ávila, que criou as Carmelitas Descalças.
No Brasil, as primeiras monjas carmelitas chegaram em 1839, com a inauguração do Mosteiro de Porto Alegre. A história da ordem também inclui as 16 carmelitas guilhotinadas na França em 1794 durante a Revolução Francesa.
Uma presença silenciosa na cidade
O mosteiro está cercado por uma cidade movimentada, com prédios, bares, restaurantes e circulação constante. Para as irmãs, a clausura não significa indiferença ao que ocorre fora dos muros. Como não acompanham diretamente todas as situações do mundo, procuram colocá-las diante de Deus em suas orações.
A vida no Carmelo é descrita pelas religiosas como simples, escondida e real: feita de trabalho, silêncio, convivência, renúncia, alegrias e dificuldades. As monjas não se consideram mulheres que já chegaram à santidade, mas pessoas que desejam caminhar para Deus, recomeçando quando necessário.
Durante a novena de Nossa Senhora do Carmo, realizada anualmente de 7 a 15 de julho, há missas diárias às 19h. A solenidade da padroeira é celebrada em 16 de julho. Nesse período, amigos da instituição e devotos organizam uma feira com artesanatos, pães e bolos produzidos localmente. As freiras não entram em contato com o público, e a arrecadação é entregue ao mosteiro.
A clausura, para as carmelitas, é uma escolha de amor que procura manter a vida voltada à oração e ao serviço. Em meio ao barulho da avenida, elas seguem uma rotina que pretende escutar, no silêncio, a voz que reconhecem como seu chamado.







