BELO HORIZONTE — A popularidade de “A Banda” alcançou uma dimensão incomum poucas semanas depois de sua vitória no festival da TV Record. Em São Paulo, lojas chegaram a vender 50 compactos de Chico Buarque por hora. Duas semanas após a apresentação, a Philips informou que a gravação de Nara Leão havia chegado a 80 mil cópias, enquanto a de Chico somava 20 mil e a do Quarteto em Cy, 10 mil. “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré, beirava 60 mil; “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, de Roberto Carlos, atingia 40 mil.
O ponto de partida tinha sido 10 de outubro de 1966, quando “A Banda” e “Disparada” dividiram o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira. A marcha, defendida por Nara, transformou Chico, então com 22 anos, em ídolo de massa. A letra tinha cinco estrofes, 33 versos e 190 palavras.
Da banca do jogo do bicho às ruas de Belo Horizonte
Naquele outubro, em Belo Horizonte, Benedita do Amaral deixou sua banca para procurar o compacto de Chico. Depois de duas tentativas frustradas em lojas do centro, recebeu a promessa de que policiais à paisana entregariam um exemplar em sua casa. No local, eles encontraram 122 listas do jogo do bicho sobre o toca-discos. A prisão foi noticiada em 20 de outubro.
No mês seguinte, a recepção ao cantor na capital mineira teve quatro batedores e 35 policiais, o mesmo esquema de segurança usado para o presidente da República. Chico foi saudado por sete bandas e por uma multidão estimada em 30 mil pessoas na rua Bahia. Dias antes, em Curitiba, ele havia encontrado 10 mil fãs na praça 29 de Março.
A canção também chegou a espaços inesperados. Em Minas, a Juventude Unida dos Santos Anjos da Guarda passou a usar sua melodia em letras litúrgicas. Em Cabo Frio, o presidente da Banda Santa Helena pediu que Chico intercedesse por mais recursos para as filarmônicas do interior.
Entre elogios, quartéis e oposição
Carlos Drummond de Andrade publicou um elogio no Correio da Manhã em 14 de outubro. “Viva a música, viva o sopro de amor que música e banda vêm trazendo”, escreveu o poeta. O texto seria reunido ao livro “A Banda”, lançado em dezembro pela editora Francisco Alves.
A música atravessou posições políticas distintas. Dom Helder Câmara dedicou os dez minutos de seu programa de televisão à canção. Nelson Rodrigues contou que chorou ao ouvi-la. Em novembro, Carlos Lacerda presenteou Juscelino Kubitschek com o compacto durante um encontro em Lisboa e disse: “Foi a única coisa alegre que aconteceu no Brasil nestes três anos”.
Em Brasília, “A Banda” foi executada na troca de guarda do Palácio do Planalto. A música também passou a acompanhar a saída dos Dragões da Independência do Ministério da Guerra, três minutos depois do toque de clarim, ao meio-dia das segundas e quintas-feiras.
Um sucesso que também encontrou resistência
O impacto internacional apareceu ainda no Festival Internacional da Canção, no fim de outubro. Inge Brück anunciou que gravaria a música na Alemanha; Amália Rodrigues, em Portugal; e Mitch Murray, na Inglaterra. Daniel Faure e Guy Mardel chegaram a preparar uma versão em francês para Brigitte Bardot.
Chico, porém, rejeitou a ideia de que sua música tivesse uma finalidade política. Em entrevista à revista Manchete, afirmou que “A minha música não é política” e disse que não pretendia servir a determinadas causas ou mudar qualquer coisa além da própria música.
A unanimidade também não foi completa. Maysa declarou que não gostava da linha melódica, embora elogiasse a letra. Em 1967 e 1968, Augusto de Campos criticou a “chicolatria” associada à marcha e a contrapôs à poética tropicalista.
“A Banda” abriu caminho para que outras composições de Chico fossem reconhecidas. Antes do festival, ele já havia escrito “Tem Mais Samba”, “Desencontro”, “Madalena Foi Pro Mar”, “Meu Refrão”, “Olé Olá”, “Pedro Pedreiro”, “A Rita” e “Sonho de um Carnaval”. Depois da avalanche de 1966, a canção deixou aos poucos o roteiro dos shows, mas permaneceu como o marco de sua chegada ao grande público.







