SÃO PAULO — O guamirim-de-inverno está entre as árvores nativas da Mata Atlântica que demonstraram maior tolerância à poluição do ar em um estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) de São Paulo. A pesquisa avaliou cerca de 350 árvores e comparou a resposta de 29 espécies à contaminação em diferentes áreas.
A espécie, também conhecida como guamirim-flor-de-cereja e pitanga-cereja, é endêmica da Mata Atlântica e tem médio porte. Seus pequenos frutos vermelhos são consumidos por pessoas, aves e outros animais, contribuindo para a dispersão das sementes. As flores brancas, ricas em néctar e pólen, atraem abelhas e outros polinizadores.
Resistência varia entre as espécies
Os pesquisadores coletaram as árvores em 4 parques localizados em São Paulo, Cotia e Iperó, sob diferentes fontes de emissão de poluentes e condições climáticas. Entre as 29 espécies analisadas, 6 foram classificadas como sensíveis à poluição, 17 como moderadamente resistentes, 4 como tolerantes e 2 apresentaram respostas diferentes conforme o local.
A ecóloga Marisa Domingos, coordenadora da pesquisa no IPA e integrante do Núcleo de Análise e Síntese de Soluções Baseadas na Natureza — BIOTA Síntese, afirmou que a tolerância ao estresse oxidativo provocado por distúrbios ambientais varia entre as árvores nativas da Mata Atlântica.
A peroba-rosa, identificada pelo nome científico A. polyneuron, apareceu entre as espécies mais sensíveis. Considerada uma das árvores mais ameaçadas da Mata Atlântica, ela pode ultrapassar 50 metros de altura. A espécie foi muito usada na construção civil e na fabricação de móveis.
O tanheiro, também chamado de tapiá, tamanqueiro e boleiro, apresentou resistência à poluição. De médio porte, produz pequenos frutos vermelhos consumidos por diversas aves, que ajudam a espalhar suas sementes.
Aplicações em cidades e áreas protegidas
A Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo (RBCV-SP) foi escolhida para o estudo por reunir alta biodiversidade e forte pressão humana. A área abrange 78 municípios e inclui parques, reservas, distritos urbanos, áreas protegidas, zonas industriais, áreas agrícolas e remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado.
Declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO em 9 de junho de 1994, o Cinturão também é reconhecido pela integração entre preservação ambiental, desenvolvimento sustentável, segurança alimentar e qualidade de vida. A região reúne cerca de 24 milhões de pessoas e responde por aproximadamente 20% do PIB nacional, o equivalente a quase 10% da população brasileira.
O trabalho investigou ainda como as plantas podem ajudar a indicar a qualidade do ar. Ao acumular poluentes e responder ao conjunto de condições ambientais, as árvores oferecem informações sobre a contaminação dos locais onde vivem. Para Ricardo Nakazato, doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente pelo IPA e professor da Universidade Guarulhos (UNG), esse biomonitoramento pode ser uma alternativa mais acessível aos métodos físico-químicos usados por agências ambientais.
O objetivo foi aplicar os resultados em projetos de reflorestamento e arborização urbana. Essas ações podem contribuir para a qualidade do ar, reduzir a sensação térmica, aumentar a umidade e favorecer a drenagem da água da chuva, além de ajudar no enfrentamento de ilhas de calor, enchentes, inundações e alagamentos.
A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pelo núcleo BIOTA Síntese e pelo Plano de Desenvolvimento Institucional em Pesquisa (PDIP/IPA). O artigo foi publicado na revista Restoration Ecology.








