Organizações de direitos humanos, sindicatos e grupos estudantis marcham em cidades chilenas neste 11 de setembro, enquanto o presidente José Antonio Kast decidiu não realizar uma cerimônia oficial pelos 53 anos do golpe militar que matou Salvador Allende. A data será passada por Kast na região de Los Ríos, em atividades governamentais.
A decisão rompe uma prática mantida desde a retomada da democracia, em 1990, após 17 anos de ditadura de Augusto Pinochet. É a primeira vez que um chefe do Executivo chileno deixa de promover uma solenidade de lembrança do golpe.
Repressão durante caminhada em Santiago
As mobilizações começaram no último final de semana. No domingo (6), uma caminhada rumo ao Cemitério Central de Santiago, onde Allende está enterrado, foi reprimida pelos carabineros, as forças policiais chilenas.
Parlamentares da oposição vinham cobrando uma manifestação oficial do governo. Daniela Serrano, líder do Partido Comunista no Legislativo, afirmou que a ausência presidencial transmite uma mensagem negativa e reduz uma oportunidade de reafirmar o compromisso do Estado com a verdade, a justiça e garantias de não repetição.
Para o jornalista e historiador chileno Andrés Almeida, a escolha de Kast reflete a chegada ao poder de um político ligado a posições favoráveis à continuidade do regime de Pinochet. Ele também relacionou o cenário à fragilidade da oposição, da esquerda e do governo de Gabriel Boric.
Memória preservada por governos anteriores
O Chile já havia adotado medidas oficiais para manter a lembrança do golpe e dos crimes da ditadura. No início dos anos 1990, o presidente Patricio Aylwin promoveu o sepultamento de Allende com honras de Estado. Michelle Bachelet, que governou o país em duas oportunidades, ampliou a cerimônia anual relacionada à data.
Mesmo Sebastián Piñera, de centro-direita, realizou solenidades em seus mandatos. Em 2023, Boric assinou com outros ex-presidentes o documento Compromisso pela Democracia, no Palácio de La Moneda, em defesa de princípios democráticos diante de ameaças autoritárias, da intolerância e do desprezo pela opinião alheia.
Dados oficiais indicam que cerca de 3,2 mil chilenos foram mortos por agentes do Estado e quase 40 mil foram torturados e presos por razões políticas. Grupos de familiares estimam que o total de mortos, desaparecidos, torturados e presos supere os 100 mil. Mais de 1.500 agentes da ditadura foram processados por crimes cometidos no período.
Pinochet foi preso na Inglaterra por decisão da Justiça espanhola e processado após retornar ao Chile. Morreu em 2006 sem condenação.
Vínculos políticos com o período Pinochet
Antes de assumir o poder, no início de 2025, Kast nomeou Fernando Rabat para o Ministério da Justiça e Direitos Humanos e Fernando Barros para o Ministério da Defesa. Rabat integrou a equipe jurídica que defendeu Pinochet em acusações relacionadas ao desaparecimento de 119 opositores na Operação Colombo. Barros foi porta-voz e advogado pessoal do ex-ditador durante a prisão em Londres, entre 1998 e 2000.
Kast também fez campanha pela continuidade de Pinochet no plebiscito de 1988. Seu irmão, Miguel Kast, foi ministro e presidente do Banco Central chileno durante a ditadura. O presidente afirma que seu pai, Michael Kast, foi recrutado à força pelo Exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e nega que ele tenha sido partidário do nazismo.
O Partido Nacional Libertário, liderado no Legislativo pelo deputado Johannes Kaiser, apresentou um projeto para criar um Museu da Verdade em Santiago. A proposta contesta a abordagem do Museu da Memória e dos Direitos Humanos e defende uma interpretação sobre os opositores do governo da Unidade Popular, que antecedeu o golpe de 1973.








