SÃO PAULO — A Universidade Federal da Bahia (UFBA) concedeu, no mês passado, um diploma simbólico de engenheiro a Carlos Marighella. O guerrilheiro estudou durante quatro anos na instituição, mas não concluiu o curso na Escola Politécnica porque foi alvo de ações da ditadura. No último ano, ele foi preso e não conseguiu fazer as provas finais.
A homenagem emocionou especialmente o filho, Carlos Augusto, conhecido como Carlinhos. Para ele, preservar a memória do pai também significa tornar mais conhecida a luta de Marighella pelo país. “A preservação da memória é fundamental”, afirmou.
Documento reconheceu responsabilidade do Estado
A certidão de óbito de Marighella foi entregue a Carlos Augusto em 11 de setembro de 1996, 27 anos depois de ele descobrir o assassinato do pai. Aos 20 anos, o estudante reconheceu, por uma fotografia recebida pelo telex, o corpo atingido por balas. A morte ocorreu em 4 de novembro de 1969, durante uma emboscada feita por agentes da ditadura em São Paulo.
O documento registrou que o Estado assumia a responsabilidade pela morte do ex-deputado federal e guerrilheiro nos termos da Lei 9.140, sancionada em 1995. A legislação criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e representou, para a família, o primeiro passo de reparação da imagem de Marighella.
O primeiro presidente da comissão, Miguel Reale Júnior, afirmou que a admissão foi um dos momentos mais importantes do grupo. Ele também disse que o caso permitiu contestar a versão policial de confronto e reconhecer que houve fuzilamento. “Havendo assassinato de pessoa sob controle [policial], configura responsabilidade do Estado”, declarou.
Retificação ampliou informações
No ano passado, a família recebeu um novo documento, com informações acrescentadas. A atual presidente da comissão, Eugênia Gonzaga, explicou que os registros originais tinham omissões. Entre elas estava o casamento de Marighella, realizado na clandestinidade, com a ativista Clara Charf, que morreu em 2025.
Quando o documento foi retificado, Clara passou a aparecer como viúva e companheira de Marighella. Na ocasião em que a família recebeu o registro, outros 62 documentos também foram entregues. A certidão passou a adotar a formulação de morte não natural, violenta, decorrente da perseguição política do Estado brasileiro.
Marighella foi inicialmente sepultado como indigente. Somente em 1979, após a Lei de Anistia, seus restos mortais foram transportados para Salvador, cidade natal do guerrilheiro. Na mesma decisão, também foi feita a certidão de óbito de Carlos Lamarca, capitão desertor do Exército que atuou na guerrilha.
Lembranças do filho
Carlos Augusto relatou que ele e Clara Charf buscaram justiça para a memória de Marighella. O filho também afirmou que a reparação precisa ir além da solução de pendências legais e servir de lição para a sociedade, com valorização da democracia.
A família não recuperou a produção intelectual de Marighella, incluindo músicas, poesias e discursos levados durante incursões à casa. Carlinhos mantém o desejo de que um memorial seja criado para preservar a memória do pai.
Ele também recordou os encontros com Marighella depois do golpe. Em maio de 1964, o pai aparecia na escola usando peruca; os dois iam a uma padaria próxima para comer sanduíche de mortadela. Apesar das prisões, perseguições e do assassinato, Carlos Augusto disse nunca ter visto nele um olhar de desânimo.








