O El Niño deve provocar uma redução mais intensa das chuvas no oeste do Nordeste, especialmente na região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e oeste da Bahia. A previsão é do climatologista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Barbosa afirma que o fenômeno está em intensidade muito forte e ainda não atingiu seu pico. A expectativa é de que o oeste nordestino tenha um início de estação chuvosa abaixo da média. A área, localizada entre a Caatinga e o Cerrado e marcada pela produção de grãos, deve continuar sob influência da seca até pelo menos o início de 2027.
Chuva irregular no semiárido
No semiárido, a estação chuvosa mais importante vai de fevereiro a maio. Segundo o climatologista, a pré-estação, entre dezembro e janeiro, pode apresentar boas chuvas e criar uma expectativa positiva para os agricultores. Depois, porém, podem ocorrer períodos de estiagem durante a estação chuvosa, reduzindo o volume acumulado.
A costa leste do Nordeste apresenta condições diferentes. Pernambuco teve chuvas mais bem distribuídas, favorecidas pelo Atlântico aquecido e pela passagem de frentes frias. Já Alagoas, Sergipe e algumas áreas da Bahia registraram volumes bem abaixo da média. No leste do Nordeste, a previsão para 2027 é de um possível início irregular da estação chuvosa, com melhora ao longo dos meses seguintes.
O Lapis divulgou um mapa de monitoramento baseado em dados de satélite, com informações sobre o período de nove de agosto a 10 de setembro. O levantamento apontou concentração de chuvas na região Sul, em áreas pontuais da Amazônia e no leste nordestino. No interior do Nordeste, o laboratório identificou uma seca relâmpago, caracterizada pela intensificação rápida da estiagem associada às altas temperaturas.
O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, registrou 641 municípios brasileiros em situação de emergência por seca e estiagem no dia 16 de setembro. Cerca de 5 milhões de pessoas foram atingidas, e o semiárido concentra a maior parte das cidades afetadas.
Calor deve atingir quase todo o país
Para Barbosa, o principal efeito direto do El Niño são as altas temperaturas. No Brasil, com exceção parcial do Sul, as temperaturas podem ficar em média um a dois graus acima da média histórica. O calor aumenta a evaporação e agrava os efeitos da falta de chuva, especialmente no Nordeste.
A combinação entre calor e solo seco pode acelerar a chamada seca relâmpago. Quando a umidade do solo fica abaixo de 20%, o fenômeno já pode ser identificado. A atmosfera mais seca retira umidade do solo rapidamente, enquanto os açudes também secam mais depressa.
A Amazônia também deve enfrentar uma redução significativa das chuvas, possivelmente igual ou maior que a registrada entre 2023 e 2024. No Sudeste, além do aumento das temperaturas, a previsão indica secas mais agudas e redução de chuva. No Sul, as chuvas intensas devem continuar, inclusive durante janeiro e fevereiro, embora o Atlântico possa oferecer algum alívio.
Um estudo do Laboratório de Impacto Climático, consórcio de universidades, estima que 451 mil pessoas podem morrer no mundo até fevereiro de 2027 por causa do El Niño. Para o Brasil, a estimativa é de até 13,3 mil mortes.
Pico previsto para novembro
O El Niño atual já ultrapassou dois graus de aquecimento no Pacífico e, para Barbosa, está deixando a condição muito forte e se aproximando da categoria extrema. O climatologista o considera o mais intenso registrado, no mínimo, nos últimos 50 anos.
O pico deve ocorrer em novembro. A resposta atmosférica mais forte é esperada em fevereiro, com um intervalo de dois a três meses entre o pico do oceano e seus efeitos na atmosfera. A tendência é que o fenômeno perca força entre março e abril de 2026-2027 e chegue a uma condição neutra em maio, mas essa não é uma previsão definitiva.
O El Niño é um fenômeno natural e recorrente, associado ao aquecimento de áreas do Pacífico quando os ventos alísios enfraquecem. Embora seja natural, seus efeitos se somam ao aquecimento global, contribuindo para temperaturas mais altas e para mudanças nos padrões de chuva, pressão atmosférica e umidade.








