O horário de compra de Dalva não era casual. Ela aparecia quando a feira estava perto de terminar porque precisava encontrar preços que coubessem no dinheiro reservado para a alimentação. A renda curta era dividida entre aluguel, remédios e mercado, e cada compra exigia cuidado.
Mauro, que trabalhava desde antes do amanhecer, levou algum tempo para entender o padrão. Dalva comparava valores, carregava uma sacola dobrada na bolsa e mantinha moedas separadas no bolso. Às vezes levava duas ou três frutas, principalmente quando encontrava algum desconto. Se não pudesse comprar, agradecia e seguia para outra banca. Nunca pedia produtos de graça.
A explicação veio depois de meses de encontros. Uma cliente comentou que as frutas da primeira hora pareciam melhores. Dalva esperou a mulher se afastar e contou que sabia disso. Ainda assim, preferia chegar no fim, quando alguma banca baixava o preço ou acrescentava uma peça à compra.
Antes mesmo de saber o motivo, Mauro já havia criado uma forma discreta de ajudá-la. Ele separava alimentos que ainda estavam bons para consumo, mas não resistiriam até a próxima feira. Bananas maduras demais e maçãs com pequenas marcas na casca podiam ser vendidas por um valor menor. Dalva conferia tudo e aproveitava as frutas, inclusive para fazer bolo.
A combinação não era fixa. Em algumas semanas, quase nada sobrava. Em outras, Mauro oferecia primeiro a ela o que não levaria de volta. Quando Dalva faltou por causa de uma consulta, ele guardou uma sacola e acabou levando-a para casa. A ausência mostrou que os encontros já tinham se transformado em algo além de uma venda.
No começo do mês seguinte, Dalva levou uma forma embrulhada em um pano limpo. Dentro havia um bolo de banana feito com as frutas que havia comprado. Ela cortou uma fatia na ponta da banca, já quase desmontada. Mauro perguntou pela receita, mas ela explicou que fazia tudo pelo cheiro e pelo ponto da massa.
Depois da conversa sobre sua renda, nada virou obrigação. Dalva continuou chegando perto do fechamento e, em algumas ocasiões, saía sem comprar. Mauro manteve o funcionamento da banca e passou a fazer uma pergunta antes de separar qualquer produto: o que estava faltando em casa? Ela respondia ou dizia que, naquela semana, estava tudo bem.
A rotina preservou a autonomia de Dalva. Ela seguia escolhendo as próprias frutas, controlando as contas na caderneta e decidindo o que levar. Para Mauro, a diferença foi deixar de interpretar a chegada tardia como simples preferência por sobras e compreender que aquela era uma escolha calculada dentro do orçamento da casa.







