A Organização de Cooperação de Xangai (OCX) pode se tornar uma plataforma de conexão entre instituições financeiras, acordos comerciais e projetos de infraestrutura na Eurásia e no Sul Global, avalia o economista russo Yaroslav Lissovolik.
A proposta inclui uma aproximação mais estruturada com o BRICS+ e o envolvimento da organização em rotas alternativas de comércio, como o corredor Norte-Sul. O trajeto liga o porto de Mumbai ao Irã e chega a São Petersburgo por ferrovia e navegação no mar Cáspio, passando por Rússia, Irã e Índia, que participam dos dois blocos.
Da segurança à integração econômica
Lissovolik afirma que a OCX foi criada há 25 anos com foco predominante em segurança, mas passou a enfrentar uma demanda crescente por integração econômica e comercial. Na avaliação dele, pagamentos em moedas nacionais, projetos de conectividade e mecanismos de financiamento podem dar mais consistência à atuação do grupo.
Na cúpula realizada em Bishkek, no Quirguistão, foram assinados 28 acordos. Entre os pontos destacados pelo economista estão referências ao sistema financeiro, aos corredores de conectividade e a roteiros de projetos e portfólios de investimentos.
A criação de um banco de desenvolvimento da OCX também está em discussão. Quirguistão e Cazaquistão se ofereceram para sediar a instituição. Para Lissovolik, é preferível dedicar mais tempo à definição do modelo do que iniciar a estrutura com decisões equivocadas.
Uma rede de blocos e instituições
O economista defende que um eventual formato OCX+ reúna membros plenos, parceiros e observadores, além de organizações regionais como a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). A ideia é conectar acordos comerciais e projetos que hoje avançam principalmente por meio de negociações bilaterais.
A sobreposição entre a OCX e o BRICS+ é vista por ele como uma oportunidade de ampliar plataformas para o Sul Global. Atualmente, Rússia, China, Irã e Índia são membros plenos dos dois agrupamentos. Considerando parceiros, observadores e outras categorias, há onze países presentes nas duas estruturas.
A proposta também envolve a plataforma Beams, formada pela Iniciativa da Baía de Bengala para Cooperação Multissetorial (Bimstec), pela União Econômica Eurasiática (UEE), pela Área de Livre Comércio Continental Africana, pelo Mercosul e pela OCX. Lissovolik relaciona a ideia aos “tijolos” e às “vigas” de uma mesma construção, representados por BRICS e Beams.
Trajetória ligada às finanças globais
Lissovolik entrou no mercado financeiro no fim dos anos 1990, no Renaissance Capital, e depois trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI), como assessor do diretor-executivo russo Alexei Mozhin. Também foi economista-chefe do Deutsche Bank para a Rússia e a Comunidade de Estados Independentes (CEI) por cerca de dez anos.
Mais tarde, passou pelo Banco de Desenvolvimento da União Econômica Eurasiática e pelo Sberbank, onde comandou a área de pesquisa de investimentos. Em 2023, fundou a Brics+ Analytics. Antes disso, em 2017, havia apresentado a ideia da sigla R5, baseada no uso das moedas nacionais dos cinco países do BRICS em operações do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e de bancos regionais.
A entrevista ocorreu em 2 de setembro, dez dias antes da cúpula do BRICS em Nova Délhi, na Índia, e um dia depois do encerramento do encontro da OCX em Bishkek, no Quirguistão. Para o economista, a organização pode funcionar como elo entre diferentes iniciativas de integração e sustentar a construção da chamada Grande Eurásia.






