PORTO ALEGRE — Paulo Betti relaciona sua formação artística ao ensino público gratuito e à possibilidade de estudar à noite enquanto trabalhava. O ator, autor e diretor esteve na cidade nos dias 26 e 27 de setembro para apresentar a peça “Autobiografia Autorizada”, na inauguração do Teatro Bancários RS, e ministrar uma oficina de interpretação.
Educação como caminho
Caçula de uma família de 15 irmãos e descendente de italianos, Betti contou que entrou aos cinco anos em uma creche de tempo integral dentro de uma escola do Estado. Depois, passou por escolas públicas de tempo integral, pelo ginásio industrial e por uma escola municipal noturna.
A etapa seguinte foi a Escola de Arte Dramática da USP, curso técnico dentro da universidade. Por ser noturno, o curso permitia que ele trabalhasse durante o dia. Para o ator, essa sequência, financiada pelo Estado, foi decisiva para sua trajetória e reforça a necessidade de ampliar o acesso à escola pública.
A escolha pelo teatro também está ligada ao ambiente familiar e ao bairro onde cresceu, em Sorocaba (SP). Betti lembra da avó, conhecida por contar histórias, e da mãe, que também cultivava esse hábito. As narrativas, mais tarde, foram associadas por ele às “Fábulas Italianas”, de Italo Calvino.
Ele descreveu a infância em uma região com muitas famílias negras, marcada pelo batuque, pelos ritmos e pela presença de três escolas de samba. Essa convivência, afirmou, contribuiu para sua formação como artista.
Uma peça sobre origem e classe
Na “Autobiografia Autorizada”, Betti transforma lembranças da infância e da adolescência em material de cena. A decisão de escrever o próprio monólogo veio depois que ele se incomodou com um texto anterior, produzido por outra pessoa, que fazia humor com a ideia de uma empregada doméstica na família.
Filho de um servente de pedreiro e de uma empregada doméstica, o ator decidiu narrar a própria história a partir de sua origem. “Eu não podia trair a classe social à qual eu pertencia”, disse.
Betti afirmou que sua condição social mudou com o trabalho na televisão e no cinema, mas que o lugar de origem continua sendo uma referência para interpretar a própria vida. Ele também relacionou a peça à ancestralidade de sua família, formada por descendentes de italianos que vieram para trabalhar nas fábricas.
A escrita faz parte desse processo. Durante 25 anos, ele escreveu colunas em um jornal do interior e manteve o hábito de anotar histórias, observações e acontecimentos familiares. Segundo o ator, escrever à mão ajudou a elaborar experiências da infância, inclusive a doença do pai, que tinha esquizofrenia.
Personagens e força das novelas
Ao comentar sua carreira de mais de 50 anos, Betti citou dois personagens marcantes: Carlos Lamarca, no cinema, e Téo Pereira, de “Império”, na televisão. Para interpretar Lamarca, perdeu 17 quilos, leu “Guerra e Paz”, livro associado ao personagem, e tentou reproduzir aspectos de sua letra.
Sobre Téo Pereira, destacou o caráter cômico e a relação do personagem com o início dos blogs de notícias escandalosas, falsas ou exageradas. O ator também afirmou que as novelas continuam tendo influência sobre o público. Ele mencionou produções com 25 pontos de audiência, alcançando cerca de 40 milhões de pessoas.
Na avaliação de Betti, as novelas refletem e também influenciam a realidade. Para ele, costumam abordar mudanças sociais com humor e provocar reações progressistas. O ator disse ainda que gostaria de ver comentários ao fim dos capítulos, com análises antropológicas, sociológicas e ideológicas sobre o que foi exibido.
Cultura, política e religião
Betti participou, em 1989, da produção do jingle “Lula Lá” e falou sobre a aproximação entre sua origem familiar operária e o surgimento do Partido dos Trabalhadores. Ele relatou ter estudado teatro durante a ditadura, período em que os grupos precisavam apresentar ensaios à censura antes da estreia.
Ao tratar do momento político, defendeu a participação dos artistas e declarou: “Estamos em risco. Nosso país está em risco”. Também criticou o uso da religião para restringir a liberdade e afirmou que a fé deveria contribuir para a compreensão das diferenças e para a libertação das pessoas.
O ator contou ter recebido uma formação religiosa que reunia candomblé, umbanda, espiritismo e catolicismo. Ao falar dos chamados mercadores dos templos, mencionou a manipulação da fé e a mistura entre atuação religiosa e faturamento. Ao mesmo tempo, ponderou que as comunidades religiosas oferecem acolhimento e apoio a pessoas em situações desfavoráveis.
No Teatro Bancários RS, Betti elogiou o projeto financiado pela Federação dos Bancários e pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. Para ele, o espaço foi pensado como teatro, e não apenas como auditório, e representa um investimento cultural ligado ao sindicalismo.







