Aos 58 anos, Silvio recebeu o diploma depois de seis anos conciliando o trabalho na construção civil com aulas noturnas. O retorno aos estudos começou aos 52, quando uma mudança no trabalho passou a exigir a leitura de instruções técnicas mais extensas.
Ele havia deixado a escola aos 14 anos para ajudar em casa, carregando materiais. Embora tivesse aprendido medidas, proporções e cálculos usados na profissão, evitava formulários e textos longos. Durante anos, dizia que a experiência era mais importante que um diploma, sem revelar a vergonha de ler devagar diante de outras pessoas.
Aulas mantidas em segredo
Silvio encontrou um aviso sobre aulas noturnas para adultos, guardou o papel e levou quase um mês até entrar na sala. Para chegar ao local, pegava dois ônibus. Na obra, dizia que passava as noites vendo televisão e guardava os exercícios em uma pasta sem identificação. O primeiro caderno ficava dentro de uma caixa de ferramentas limpa, apresentado como orçamento quando alguém perguntava.
A rotina era pesada. O trabalho começava cedo e, em noites de chuva, os ônibus demoravam mais. Ele chegou à aula com a camisa úmida, reprovou em uma avaliação e faltou três dias seguidos. Uma professora separou exercícios menores, e um colega o ajudou a dividir o conteúdo em etapas.
As experiências profissionais também ajudaram no aprendizado. Medir paredes facilitou a compreensão de geometria, enquanto comparar custos contribuiu para entender porcentagens. Aos poucos, Silvio passou a ler instruções até o fim e a fazer perguntas quando precisava de ajuda.
O apoio da família e dos colegas
Dois anos depois, a esposa, Marlene, descobriu os estudos ao encontrar uma folha com problemas matemáticos. A filha trouxe uma luminária e revisava textos por chamada de voz; Marlene também reorganizou o jantar nos dias de aula. Silvio, porém, continuou sem contar aos colegas da obra.
Perto da conclusão, um cartão de estudante encontrado dentro do capacete revelou o segredo. Houve surpresa, duas piadas e perguntas sinceras. Um ajudante de 29 anos disse que pensava em voltar a estudar, e o encarregado pediu a data da cerimônia.
Na formatura, quatro colegas compareceram com Marlene e a filha. Depois do diploma, Silvio continuou trabalhando na obra, passou a assumir orçamentos mais complexos e começou a explicar cálculos aos colegas. Também deixou o primeiro caderno na prateleira da sala.
Meses depois, o ajudante apareceu com a própria ficha de matrícula. Silvio contou sobre os ônibus perdidos, a reprovação e a vontade de desistir. Em vez de repetir que nunca precisara estudar, corrigiu a frase: ele havia aprendido a sobreviver antes de ter tempo para voltar.







