ANÁPOLIS — Aos pés do Morro do Cachimbo, em Anápolis, Goiás, a Casa de Chico Preto transformou o espaço de um terreiro de Umbanda em ponto de encontro para atividades culturais e educativas. No Residencial Florença, o Ponto de Cultura Onã Layó oferece oficinas gratuitas de samba de roda, jongo, maculelê, capoeira, percussão e arte africana para crianças.
A iniciativa começou antes do reconhecimento oficial. Desde 2009, o templo abre suas portas para ações voltadas à cultura afro-brasileira. Em 2025, recebeu o título de ponto de cultura e foi contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura.
O nome Onã Layó significa caminho de alegria em iorubá, explica pai Hugo Maurício, babalorixá da Casa de Chico Preto. O projeto também recebe ensaios de grupos independentes, como Sambadeiras do Cerrado, Kalangorin e Afoxé Onã Layó.
Um espaço de formação e convivência
A Casa de Chico Preto foi fundada há mais de uma década, em um período em que a exposição pública de religiões afro-brasileiras enfrentava resistência ainda maior em Anápolis. Pai Hugo, iniciado na religião há 22 anos, conta que os terreiros costumavam ficar escondidos. “Os terreiros eram todos escondidos”, relembra.
A casa nasceu no bairro Eldorado, em um imóvel alugado, e depois foi transferida para o centro da cidade. A mudança marcou uma fase de maior visibilidade, com a presença de seus integrantes nas ruas usando elementos da tradição religiosa.
Além das atividades litúrgicas, o terreiro passou a atuar com educação e cultura. Para pai Hugo, um terreiro é uma comunidade formada por pessoas e atividades diversas. A proposta do ponto de cultura, porém, não se confunde com os ritos religiosos: as ações culturais são voltadas à rua, com dança, batuque e manifestações festivas, enquanto a liturgia permanece no espaço religioso.
A movimentação também alterou a rotina do Residencial Florença. Onde antes havia um espaço abandonado, matagal e acesso livre de usuários de drogas, passaram a ocorrer sessões públicas com presença de visitantes. O comércio local precisou se organizar para atender à demanda, e as relações de colaboração entre o templo e o público externo se tornaram mais frequentes.
Saberes transmitidos pela oralidade
A educação ocupa um lugar central no trabalho da casa. Os conhecimentos são compartilhados no dia a dia, pela convivência e pela oralidade, alcançando crianças, jovens e adultos. A liderança relaciona essa prática à compreensão de Paulo Freire sobre a educação comunitária e a participação social.
O movimento também acompanha mudanças no acesso ao ensino superior. O Sistema de Cotas da Universidade Estadual de Goiás foi instaurado em 2004, e o da Universidade Federal de Goiás, em 2012. Na última década, palestras e rodas de conversa com mestres e lideranças de tradições afro-brasileiras passaram a aparecer com mais frequência na cidade.
Cleonice de Oxum, ialorixá da casa, destaca a importância dos tambores, das roupas, da comida e dos rituais na preservação da ancestralidade negra. Entre os exemplos de saberes transmitidos estão o acarajé, a feijoada, a canjica e os doces preparados em celebrações religiosas.
Romário Akinyode, ogã, percussionista e cofundador do Afoxé Onã Layó, começou na capoeira aos sete anos e hoje atua como instrutor. Nas oficinas, apresenta às crianças ritmos como o samba rural e o samba de coco. Para ele, o contato desde cedo ajuda a questionar estigmas associados às manifestações afro-brasileiras.
Memória e continuidade
A atuação da Casa de Chico Preto se soma a outras iniciativas de valorização da cultura negra em Anápolis. Em julho, no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, um evento na Estação Ferroviária de Anápolis Prefeito José Fernandes Valente reuniu poesia, samba de roda, desfile de moda e shows.
Mãe Carmen, sacerdotisa do Terreiro Pai Mateus de Angola e integrante do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, defende a união para reivindicar espaços de direito. Segundo o Censo de 2022, quase 60% dos anapolinos se autodeclaram negros: 52% pardos e 7% pretos.
A ialorixá também recorda procissões de Pretos Velhos e Ogum realizadas no final da década de 1960, quando pessoas vestidas de branco percorriam a cidade com bandeiras e andores. Para ela, mesmo com mudanças na visibilidade, os terreiros continuam preservando cultura por meio da comida, das roupas e da oralidade.
A pesquisadora Talita Michelle de Souza, doutoranda em História pela UFG, aponta a presença do racismo linguístico e defende o letramento racial desde a educação básica. Na avaliação dela, os aquilombamentos em Anápolis ocorrem de forma consistente, mas ainda tímida.
Para os integrantes da Casa de Chico Preto, a continuidade depende do respeito à diversidade, aos mais velhos e aos saberes construídos pelas gerações anteriores. As oficinas e os ensaios abertos ajudam a manter esses conhecimentos em circulação e aproximam novas pessoas das tradições afro-brasileiras.








