Uma pesquisa internacional com mais de 1.600 físicos identificou divergências em temas que vão da origem do tempo à natureza da gravidade. O levantamento foi realizado a partir de uma chamada aberta em 2025 e reuniu opiniões sobre questões fundamentais da física.
O resultado mais expressivo envolve a relação entre o Big Bang e o início do tempo. Para 68% dos participantes, o Big Bang não precisa ser interpretado como o momento em que o tempo começou. Outros 20% consideraram que houve uma singularidade e também um início do tempo. Já 5% defenderam a existência de um começo do tempo sem uma singularidade.
O que a teoria descreve
A teoria do Big Bang descreve um Universo que partiu de um estado extremamente quente e denso e começou a se expandir. Ela não estabelece, por si só, que o tempo tenha começado naquele instante.
A inflação cósmica, hipótese usada para explicar a aparência uniforme do Universo, também não reúne uma maioria ampla. Segundo esse cenário, uma fração de segundo depois do Big Bang, o cosmos teria passado por uma expansão extremamente rápida. A ideia recebeu o apoio de 51% dos participantes. As demais respostas se dividiram entre modelos de universo cíclico e outras possibilidades.
Explicações para o lado escuro do cosmos
A pesquisa também mostrou uma divisão sobre a matéria escura, hipótese usada para explicar o comportamento e a distribuição das galáxias. Uma combinação de possibilidades foi escolhida por 21% dos participantes. Outros 17% apontaram partículas ainda desconhecidas, enquanto 12% defenderam alterações na teoria da gravidade.
As respostas sobre a energia escura ficaram igualmente distribuídas. Esse componente é usado para explicar a expansão acelerada do Universo. Para 24% dos pesquisadores, a explicação é uma constante cosmológica. Outros 26% consideraram que a energia escura pode variar com o tempo.
A chamada tensão de Hubble também permaneceu sem uma explicação dominante. O problema aparece porque diferentes métodos de medição da taxa atual de expansão do Universo produzem valores que não coincidem. Entre as possibilidades consideradas estavam falhas nas medições, mudanças na energia escura, efeitos de gravidade quântica e a ausência de uma opinião definida.
Questões abertas no mundo quântico
A divisão se repete em assuntos microscópicos. A interpretação de Copenhague, que considera a natureza quântica fundamentalmente probabilística, recebeu 36% das respostas.
Nos buracos negros, 41% dos participantes afirmaram que a matéria que entra nesses objetos é comprimida em uma singularidade no núcleo. A tentativa de conciliar gravidade e mecânica quântica teve respostas ainda mais fragmentadas: 29% não tinham opinião, 19% escolheram a teoria das cordas, 18% disseram que a gravidade não pode ser integrada à física quântica e 13% apontaram a gravidade quântica em loop.
Para Niayesh Afshordi, físico da Universidade de Waterloo e coautor do estudo, a falta de consenso ajuda a localizar os pontos em que ainda não há evidências suficientes para encerrar as principais disputas. “O ponto interessante não é que os físicos estejam confusos. É que a fronteira está realmente viva.”







