O cientista político André Singer afirma que a esquerda precisa preservar a frente democrática formada ao redor de Lula, mas sem abrir mão da oposição à política econômica neoliberal. Para ele, resistir ao avanço de forças reacionárias no Brasil e no mundo exige novas formas de organização de classe e maior engajamento político dos trabalhadores.
A análise está no livro “Impasse”, lançado pela Companhia das Letras. A obra examina a contradição da coalizão reunida na última eleição: embora a união de diferentes grupos tenha sido necessária para defender a democracia, os interesses conflitantes entre eles podem levar à ruptura.
De um lado, estão elites econômicas favoráveis à austeridade fiscal e à redução do tamanho do Estado. Do outro, trabalhadores que esperavam uma melhora nas condições de vida semelhante à dos primeiros mandatos de Lula. Essa expectativa, segundo Singer, depende de mais investimento social, enquanto parte desse grupo se frustra com os resultados do governo.
Economia e eleições
Na avaliação do pesquisador, a esquerda deve defender a revisão do arcabouço fiscal e a redução dos juros, sem abandonar a frente democrática. Ele também analisa os possíveis efeitos desse impasse na campanha eleitoral, incluindo a oscilação do grupo com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL).
Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP. Entre 2003 e 2007, foi porta-voz e secretário de imprensa da Presidência da República, durante os primeiros mandatos de Lula. Também é autor de “Os Sentidos do Lulismo”, publicado em 2012, sobre os governos do PT e as mudanças na base social do partido.
O pesquisador participou do podcast Ilustríssima Conversa, que entrevista autores de livros de não ficção e intelectuais a cada duas semanas. O programa está disponível em aplicativos como Apple Podcasts e Spotify, com assinatura gratuita para receber notificações de novos episódios.







