ÁGUA PRETA — Um antigo complexo industrial abriga hoje um projeto que combina arte contemporânea, preservação ambiental e formação. A Usina de Arte ocupa a área da antiga Usina Santa Terezinha, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, e alcança mais de seis mil moradores do entorno.
O espaço reúne mais de 30 obras ao ar livre, distribuídas por um parque botânico, além de cursos, oficinas, eventos e visitas pedagógicas. A iniciativa também mantém uma escola de música, uma biblioteca com acervo superior a cinco mil exemplares e terminais de informática.
Um parque criado sobre a área industrial
A transformação começou depois que Ricardo Pessôa de Queiroz iniciou a arrematação de lotes do imóvel em leilões, mais de uma década após o encerramento das atividades industriais. A antiga usina estava em ruínas, e o retorno ao local reacendeu memórias de infância do fundador.
A Usina Santa Terezinha havia sido fundada em 1929 pela família Pessôa de Queiroz. Em menos de duas décadas, tornou-se uma das grandes estruturas do setor sucroalcooleiro regional, com fábrica, galpões, centenas de quilômetros de ferrovias, aeródromo, pista de pouso e hangar. O local sofreu intervenção do governo militar em 1982 e encerrou definitivamente as atividades industriais em 1998.
A criação do novo projeto foi influenciada por encontros com moradores, professores e lideranças locais, além de uma visita ao Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Em 2015, a Usina de Arte foi inaugurada com a proposta de promover cultura, educação e consciência ambiental na divisa entre Pernambuco e Alagoas.
O parque artístico-botânico foi projetado pelo biólogo e paisagista Eduardo Gomes Gonçalves. O reflorestamento alcançou uma área de 35 hectares, com 10 mil exemplares de mais de 600 espécies, predominantemente nativas. As obras foram incorporadas à paisagem regenerada, sem a construção de pavilhões fechados.
Entre as instalações está uma obra instalada em um orquidário, apontado como a única construção erguida do zero no terreno. As demais estruturas preservam a arquitetura original da usina.
Educação e reuso do patrimônio
As edificações históricas passaram por restauro e reuso adaptativo para receber as atividades. O Fab Lab do complexo conta com impressoras 3D e cortadora a laser voltadas ao suporte de projetos comunitários.
O prédio principal da antiga fábrica é a exceção: ainda passa por um processo de restauro para garantir a segurança dos visitantes. Mesmo com as obras em andamento, o espaço já recebe as instalações Claro-escuro, do chileno Alfredo Jaar, e Fóton, da mineira Rizza.
As ações educativas atendem mais de 200 estudantes de diferentes níveis de ensino, em parceria com escolas públicas e privadas da região. Na vila de Santa Terezinha, a Escola Municipal Severino Canto alcançou, em 2017, a maior pontuação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica de toda a Zona da Mata Sul pernambucana, com avanço de dois pontos em relação à avaliação de 2013.
Festivais e programação cultural
A programação também inclui música, artes plásticas e gastronomia. O festival Arte na Usina começou em 2015, com shows de nomes da música brasileira e oficinas conduzidas por criadores pernambucanos. Depois de dez edições, o evento entrou em hiato temporário para readequação de formato e captação de patrocínio.
Em março de 2026, a instituição lançou o festival Jazz & Blues, com uma proposta ligada à origem dos gêneros no trabalho braçal dos campos do sul dos Estados Unidos e à memória dos trabalhadores rurais da cana-de-açúcar na região.







