A fila de transplantes pediátricos do Sistema Único de Saúde (SUS) considera mais do que a ordem de inscrição. Critérios clínicos e técnicos, compatibilidade entre doador e receptor e o tamanho do órgão em relação ao corpo da criança influenciam a definição de quem pode receber o órgão.
Entre janeiro e julho de 2026, foram realizados 278 transplantes pediátricos no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde. O total inclui 24 transplantes de coração, 114 de fígado e 140 de rim.
Compatibilidade reduz as opções
A busca por órgãos para crianças pode ser mais difícil porque o peso e o tamanho do doador precisam ser adequados ao receptor. Cerca de 2% das notificações de doadores falecidos correspondem a crianças, segundo Eduardo Antunes da Fonseca, diretor do departamento de transplante hepático do Hospital Sírio-Libanês.
Em 2025, o Brasil registrou 589 transplantes pediátricos: 61 de coração, 211 de fígado, dois de pulmão e 315 de rim. Dos 829 serviços de saúde autorizados a fazer transplantes de órgãos, 70 realizaram procedimentos pediátricos naquele ano.
Mais da metade dos transplantes pediátricos, 53%, utilizou órgãos de doadores entre 11 e 17 anos, conforme o Ministério da Saúde. Quando o doador é uma criança, a autorização precisa ser dada pelos dois pais, se estiverem vivos, ou pelo responsável legal.
Doação em vida
A dificuldade para encontrar um órgão compatível levou Felipe Oliveira Costa, de 7 anos, a receber parte do fígado do pai, Abimael Maurício Oliveira Silva. O menino desenvolveu cirrose e insuficiência hepática depois de uma reação medicamentosa e entrou na lista de espera por um transplante de fígado.
Sem um órgão compatível disponível, o pai decidiu fazer a doação. Para isso, precisou perder peso e passar por preparação médica. “Ele poderia morrer esperando pelo transplante”, afirmou Fonseca.
A doação em vida é permitida a adultos juridicamente capazes e saudáveis, desde que a cirurgia não coloque a saúde do doador em risco. Conforme a avaliação médica, podem ser doados um dos rins e parte do fígado, da medula ou dos pulmões.
Recusa das famílias
A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) informou que, em 2025, famílias de potenciais doadores recusaram a doação em 45% dos casos. A decisão pode ocorrer em um momento de forte abalo, especialmente quando a possível doação envolve uma criança.
Eduardo Antunes da Fonseca relatou que muitas mortes encefálicas infantis acontecem depois de afogamentos ou acidentes que provocam parada cardiorrespiratória. Entre adultos, José Sampaio, cirurgião responsável pelo Serviço de Transplante Hepático do Hospital Pequeno Príncipe, aponta o desconhecimento da vontade do potencial doador como um fator frequente.
Para Sampaio, conversar previamente em família pode ajudar a esclarecer a decisão de cada pessoa: “Aí cabe campanha de esclarecimento para estimular as famílias a conversarem sobre qual seria a decisão de cada um”.







