SÃO PAULO — A água que circula por uma caverna carrega pistas suficientes para orientar o bagre-cego de Iporanga, Pimelodella kronei. Em vez de depender da formação de imagens, o peixe reúne estímulos químicos, movimentos e sinais associados ao contato com o entorno para procurar alimento.
Sentidos adaptados ao ambiente subterrâneo
Encontrado em cavernas do Vale do Ribeira, o animal tem olhos reduzidos e pouca pigmentação, características relacionadas à permanência em locais sem iluminação. Sua alimentação inclui pequenos organismos disponíveis nos cursos de água, cuja oferta depende das condições do habitat e dos recursos transportados da superfície.
Os barbilhões, estruturas semelhantes a bigodes ao redor da boca, participam da exploração do ambiente. Eles ajudam a perceber estímulos ligados ao alimento e ao contato com o que está ao redor. Outros sistemas sensoriais também detectam perturbações na água.
O nome bagre-cego pode reunir espécies diferentes de peixes subterrâneos. Neste caso, trata-se de Pimelodella kronei, estudado em Iporanga. Não é um peixe elétrico que usa descargas para atacar ou mapear o ambiente.
A vida depende das conexões com a superfície
A ausência de luz não significa falta de vida. Cursos de água e materiais trazidos de fora podem levar recursos para dentro das cavernas, que têm condições próprias de circulação e entrada de matéria orgânica. Por isso, a disponibilidade de alimento está ligada à conexão com a superfície.
Alterações na paisagem, contaminação e mudanças no fluxo da água também podem alcançar trechos subterrâneos. Esses ambientes não funcionam como compartimentos isolados, mesmo quando parecem separados do que acontece acima da rocha.
O que os estudos acompanham
Pesquisas sobre o bagre-cego de Iporanga usaram captura, marcação e recaptura para investigar a dinâmica populacional. O acompanhamento permite observar onde os animais aparecem, como variam ao longo do tempo e quais condições podem afetá-los.
Eleonora Trajano e Ana Luiza Feigol Guil estão entre as autoras de trabalhos sobre o tema. A observação repetida é necessária porque uma visita ou o encontro com alguns indivíduos não revela o tamanho da população nem indica se ela está aumentando.
Cuidados com o habitat
A proteção envolve preservar as águas e o ambiente que alimentam a caverna. Não capturar peixes, não despejar resíduos e respeitar as regras de visitação são medidas básicas. Onde há turismo, seguir o percurso autorizado e contar com guia ajuda a reduzir impactos.
Iluminar ou fotografar o animal não autoriza tocá-lo, retirá-lo da água ou mudar o lugar onde foi encontrado. A adaptação à escuridão favorece a busca por alimento, mas não impede que alterações na água e no habitat afetem o peixe.







