A conexão entre moedas digitais de bancos centrais dos países do Brics pode avançar sem que o grupo crie, neste momento, uma moeda comum. A avaliação é do economista russo Yaroslav Lissovolik, que aponta a interoperabilidade defendida pela Índia como o passo mais plausível para aproximar os sistemas nacionais de pagamento.
Na prática, esse mecanismo poderia funcionar como alternativa ao Swift, rede de mensagens que conecta a maior parte dos bancos do mundo. A proposta teria caráter comercial, com potencial para reduzir custos e facilitar transações entre os países. Lissovolik afirma que bancos centrais e especialistas já participaram de reuniões sobre o tema e que as discussões se intensificaram antes da cúpula de Nova Délhi.
O consenso como obstáculo
O economista também critica a demora do Brics para transformar propostas em iniciativas concretas. Para ele, a regra do consenso, que ajudou a sustentar o bloco, passou a dificultar avanços. A sugestão é adotar um modelo plurilateral, permitindo que três, quatro ou cinco países desenvolvam projetos sem esperar a adesão unânime dos demais.
Lissovolik cita como referência a FIT, parceria criada por Singapura, Suíça, Emirados Árabes Unidos e Nova Zelândia e que, conforme a entrevista, passou de 14 para 19 países em menos de um ano. Na avaliação dele, a flexibilidade para formar grupos interessados em projetos específicos poderia tornar o Brics mais ativo entre as cúpulas.
A discussão ganhou força depois de uma decisão tomada em 2023, na cúpula de Joanesburgo, quando ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais receberam a tarefa de estudar alternativas em moeda local, sistemas de pagamento e uma possível moeda comum. Em 2024, a Rússia apresentou um relatório com propostas, mas, segundo o economista, não houve avanço posterior.
Moedas nacionais e mercados
Para Lissovolik, o Brics ainda precisa desenvolver sistemas financeiros acessíveis e instrumentos de mercado capazes de atrair investidores institucionais e bancos centrais. Ele afirma que a diversificação para longe do dólar é uma tendência de longo prazo, mas que outras economias desenvolvidas têm se beneficiado mais por já contarem com infraestrutura financeira e moedas de reserva.
O economista considera que uma moeda unificada não é indispensável. As próprias moedas nacionais podem ganhar espaço, desde que os países coordenem políticas macroeconômicas e discutam os controles de capital. Ele menciona controles rigorosos na Índia e na Rússia, enquanto o Brasil, na avaliação apresentada, não adota esse tipo de controle.
Bolsa de grãos
A bolsa de grãos proposta pela Rússia é considerada interessante, mas não suficiente para mudar sozinha o comércio internacional. O Brics produz 61% do arroz, 48% da soja, 47% do trigo e 42% do milho do mundo. Com os países parceiros, a participação no arroz chega a 72%. Ainda assim, entre 80% e 90% do comércio de commodities agrícolas e de energia continua faturado em dólares.
Para criar uma alternativa, seriam necessários contratos futuros, derivativos e instrumentos de proteção contra oscilações de preços. Também seria preciso ampliar o comércio entre os países do Sul Global e superar a inércia de mercados que acumulam décadas de negociações, como a Bolsa de Chicago.
Lissovolik afirma que uma eventual moeda do Brics poderia começar como unidade de conta digital, reunindo as moedas nacionais em uma cesta. A proposta R5 foi apresentada por ele em 2017 e retomada posteriormente por outros economistas. No cenário atual, porém, a interoperabilidade entre moedas digitais de bancos centrais aparece como uma etapa mais provável.








