A rotina de Lucas é organizada em pequenos intervalos. Aos 19 anos, ele pedala para fazer entregas, ajuda nas despesas de casa e cursa a faculdade — a primeira pessoa da família a chegar ao ensino superior.
O estudo começa antes do trabalho. Às 6h40, Lucas revisa a aula anterior, deixa os textos salvos no celular e separa capítulos curtos para aproveitar os períodos sem pedidos. Por volta das 8h, sai com a mochila térmica e vai para uma região com muitos restaurantes.
Quando a manhã fica mais tranquila, ele encosta a bicicleta e procura um banco ou uma sombra. Nem sempre dá para avançar muito: às vezes, consegue ler três parágrafos antes de o celular indicar uma nova corrida. Em outras ocasiões, permanece parado por 20 minutos, tempo que usa para responder exercícios ou assistir a parte de uma aula gravada.
Um curso que parecia distante
Na casa de Lucas, a mãe trabalha como diarista e o pai mora em outra cidade. Ele deixou a escola ainda jovem. Durante boa parte do ensino médio, Lucas imaginava que trabalharia em tempo integral assim que terminasse os estudos.
A possibilidade de fazer faculdade apareceu depois do incentivo de um professor. Lucas se inscreveu sem contar para muita gente, porque tinha medo de criar expectativa. Quando recebeu a confirmação da vaga, ligou primeiro para a mãe. A conquista veio acompanhada de despesas com transporte, alimentação, materiais e contas da casa.
Por isso, ele começou a fazer entregas pouco antes do início das aulas. No começo, trabalhava quase todos os dias até tarde. Depois, percebeu que o cansaço atrapalhava o curso e passou a concentrar as corridas nos horários de maior movimento, principalmente no almoço e no início da noite.
Em dias de prova, reduz o tempo conectado. Quando precisa comprar material ou contribuir mais com as despesas domésticas, aumenta a jornada por alguns dias. O trabalho pesa especialmente quando chove ou quando as entregas exigem longas distâncias de bicicleta, mas a possibilidade de escolher quando ficar disponível ajuda a ajustar o expediente às aulas.
Estudar com o tempo que aparece
Lucas baixou os materiais antes de sair, usa fones somente quando está parado e registra dúvidas no celular para pesquisar depois. Trabalhos maiores ficam para a noite. Ainda assim, há dias em que chega em casa cansado e adormece antes de terminar o primeiro exercício.
Para não depender de longos períodos livres, ele passou a aproveitar dez minutos antes de uma corrida, meia hora depois do almoço ou alguns minutos no ônibus para a faculdade. Quando tem aula presencial, prefere trabalhar perto do campus e encerrar as entregas com antecedência.
A faculdade também passou a fazer parte das conversas em casa. Os irmãos perguntam como funcionam as aulas, quanto tempo dura o curso e o que é necessário para entrar. A mãe pergunta sobre as provas e lembra os horários, mesmo dizendo que entende pouco das matérias.
Lucas ainda não sabe onde estará profissionalmente nos próximos anos. Ele reconhece que conciliar trabalho e estudo exige abrir mão de descanso, reorganizar gastos e aceitar semanas mais difíceis. Mesmo assim, os intervalos entre as entregas se tornaram parte do caminho para permanecer no curso e ocupar a primeira cadeira universitária da família.







