A inteligência artificial é apresentada como o estágio mais delicado de uma longa trajetória de tecnologias criadas para guardar, organizar e transformar a memória humana. Da oralidade à escrita, da imprensa à computação digital, cada salto alterou a maneira de pensar, aprender e se relacionar com o conhecimento.
Antes da escrita, a memória era preservada por meio da performance. Os poemas atribuídos a Homero, como a Ilíada e a Odisseia, nasceram de uma tradição oral baseada na memória coletiva e na improvisação. Por volta do século 8 a.C., o alfabeto grego fonético começava a surgir, adaptado dos fenícios.
Nesse período, o saber estava ligado ao corpo do poeta, ao ritmo, à métrica e à oralidade. Narrativas emocionais, rítmicas e antropomórficas ajudavam a conservar o conhecimento. A escrita mudou esse processo ao permitir que as palavras fossem relidas, comparadas e examinadas em busca de contradições. Dessa passagem, associada à origem do logos, surgiu a forma de argumentação racional, abstrata e sistemática ligada à Filosofia.
Da imprensa à computação
Platão criticou a escrita no “Fedro”, afirmando que ela poderia atrofiar a memória e criar uma ilusão de sabedoria sem aprendizado real. A escrita também separou o saber do coletivo e o vinculou ao indivíduo proprietário, consolidando a noção de autoria.
Séculos depois, a imprensa de Gutenberg tornou o conhecimento mais estável, portátil e padronizado. A possibilidade de reproduzir textos com precisão ajudou a ciência moderna, ao permitir a repetição de experimentos, e contribuiu para a Reforma Protestante Luterana, já que cada pessoa podia ler a Bíblia sem mediação da Igreja Católica.
A computação digital acrescentou uma mudança importante: a memória deixou de ser apenas um acervo estático e passou a ser dinâmica e processável. Bancos de dados, hipertextos, relações cruzadas e buscas instantâneas deslocaram o problema central da falta de informação para a necessidade de filtrar e encontrar o que importa.
A inteligência artificial amplia esse movimento. Diferentemente das tecnologias anteriores, descritas como passivas, ela é ativa e generativa. Pode mudar de argumento, responder a perguntas, adaptar-se ao interlocutor e, com frequência, bajular quem a consulta sem postura crítica.
A exigência da curadoria crítica
Essa capacidade cria um risco: o conhecimento humano pode se tornar uma memória de segundo grau. Nesse cenário, a pessoa sabe que determinada informação existe, mas perde a capacidade de acompanhar o caminho lógico que levou até ela e passa a confiar na síntese produzida pela máquina.
Por isso, a absorção de informação precisa ser acompanhada de curadoria crítica. Não basta armazenar ou acumular; é necessário interrogar a ferramenta, verificar seus argumentos e manter ativa a dúvida.
A crítica de Nicholas Carr à superficialidade ajuda a explicar esse desafio. Em A Geração Superficial (2010), Carr sustenta que o cérebro é maleável e se adapta aos estímulos recebidos. Para ele, o uso intenso da internet reconfigura circuitos neuronais, enquanto links, notificações e estímulos constantes favorecem uma atenção fragmentada.
A imagem usada para resumir essa transformação é a do mergulhador que se torna surfista. O leitor de livros mergulha em um oceano de palavras, com concentração e contemplação. O usuário da internet desliza pela superfície das informações, passando de um conteúdo a outro sem necessariamente se aprofundar.
Nessa perspectiva, a superficialidade não é tratada como defeito moral, mas como sintoma de um cérebro condicionado ao fluxo rápido de informação, em prejuízo da imersão profunda.
Inteligência ou esperteza?
Roger Penrose, vencedor do Prêmio Nobel de Física de 2020, questiona o uso do termo inteligência artificial. Para ele, a expressão pode distorcer a maneira como pensamos sobre as máquinas e levar à atribuição de qualidades que elas não possuem, como compreensão e consciência.
Penrose considera a consciência um fenômeno não computacional. Os processos mentais conscientes, em sua visão, não poderiam ser replicados por qualquer algoritmo ou sistema computacional. Por isso, propõe substituir inteligência artificial por esperteza artificial.
A distinção seria semelhante à de um estudante que repete brilhantemente o que aprendeu, mas não compreende o que está fazendo, em contraste com aquele que entende de fato o problema. Os sistemas atuais seriam hábeis em processar e calcular, mas não teriam compreensão genuína nem criatividade.
O alerta também retoma a preocupação de Platão com a falsa sabedoria. No “Fedro”, escrito em 370 a.C., o risco era parecer sábio por repetir o conteúdo de um livro. Com a inteligência artificial, a aparência de sabedoria pode vir das respostas fornecidas em tempo real por um assistente de voz.
A questão, então, é saber se chamar um sistema de inteligente descreve apenas o que ele faz ou se leva, de forma silenciosa, à suposição de que ele compreende e tem consciência.
A dúvida como princípio
A necessidade de questionar aparece também em uma passagem atribuída por biógrafos à vida de Karl Marx. Em abril de 1865, durante uma visita ao tio Lion Philips, em Zalt-Bommel, na Holanda, Marx estava acompanhado da filha Laura. Quando ela perguntou qual era seu lema, ele respondeu: “Duvide de tudo, questione sempre!”
A frase resume a postura defendida diante da IA: atravessar o oceano de informações sem abandonar a capacidade crítica e analítica. As tecnologias ampliam o volume de dados disponíveis, mas não substituem o exercício de avaliar, comparar e compreender.
A dúvida, nesse sentido, não é uma recusa da tecnologia. É uma forma de evitar que a memória acumulada se transforme em eco sem razão. O desafio é aproveitar a capacidade da inteligência artificial sem abrir mão da criatividade humana, da reflexão profunda e da busca pela verdade.








