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Movimento camponês haitiano completa 40 anos sob crise e mantém organização popular

Criado em 1986, o Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen substitui comemorações por assembleias locais diante da violência no Haiti.

Movimento camponês haitiano completa 40 anos sob crise e mantém organização popular

O movimento camponês Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen completa 40 anos em setembro de 2026 sem realizar o grande encontro nacional planejado para marcar a data. Com estradas bloqueadas por gangues e tensão na região da capital, a organização decidiu promover dezenas de assembleias locais nos próximos meses.

Os encontros devem reunir as bases para momentos de reflexão, crítica e autocrítica. A estratégia retoma a forma de atuação construída desde a criação do movimento, em setembro de 1986, com organização popular, formação de base e defesa dos direitos da população rural.

Jean-Jacques Henrilus, um dos fundadores e integrante da Coordenação Nacional, afirma que o objetivo é construir uma sociedade sem favores, na qual quem trabalha possa viver do próprio trabalho. Para ele, os resultados alcançados ao longo das quatro décadas não podem ser minimizados.

O movimento, segundo Henrilus, consegue mobilizar pessoas nos 10 departamentos do país e estimular formas coletivas de trabalho e solidariedade entre camponeses. Pierre-Mary Louis, integrante da Direção Executiva, diz que as formações e o acompanhamento contínuo ajudaram os trabalhadores rurais a conhecer e reivindicar seus direitos.

Da clandestinidade à organização nacional

A articulação que daria origem ao Tèt Kole começou durante a ditadura de François e Jean-Claude Duvallier, entre 1956 a 1986. Os camponeses estavam entre os principais alvos da repressão praticada por autoridades locais, milícias e paramilitares conhecidos como Tonton Makoute.

Na década de 1970, as primeiras reuniões ocorreram de forma clandestina junto às comunidades de base da Cáritas, em um período de restrições às liberdades de associação e expressão. Para evitar a repressão, os participantes usavam as próprias roças como espaço de encontro, aproveitando o intervalo do almoço depois de mutirões de trabalho.

Com o crescimento da articulação, foram organizados encontros de vários dias em áreas de mata e canaviais, além de reuniões em Porto Príncipe. Os participantes chegavam e saíam em horários diferentes, enquanto os encontros eram realizados em voz baixa para evitar aglomerações.

Após a queda do regime de Duvallier, o movimento realizou seu primeiro encontro nacional em 6 de setembro de 1986 e oficializou o nome Tèt Kole. A mudança política, porém, não encerrou a violência nem a marginalização da população camponesa.

O Haiti não concluiu uma reforma agrária com redistribuição de terras. Grandes parcelas permanecem nas mãos de proprietários, igrejas ou do Estado, enquanto muitos camponeses vivem como arrendatários ou trabalhadores precarizados.

Um dos episódios mais graves ocorreu em Jean Rabel, em 23 de julho de 1987. Na ocasião, 139 camponeses foram assassinados por reivindicarem um pedaço de terra. Mesmo com menos de um ano de existência formal, o Tèt Kole permaneceu ao lado das famílias e continuou a atuação pela organização popular e pelo acesso à terra.

Agroecologia, direitos e solidariedade internacional

As atividades do movimento incluem a busca por documentos de identidade e serviços básicos, além de iniciativas de agroecologia, soberania alimentar, educação popular, preservação ambiental, economia social e solidária e igualdade de gênero. A organização também defende a soberania do Haiti e de sua população diante de formas de ingerência imperialista.

No exterior, o Tèt Kole participa de articulações como a CLOC-Via Campesina, a Alba Movimentos e a Assembleia Internacional dos Povos. O movimento mantém ainda uma relação com o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), do Brasil, que mantém uma brigada permanente de militantes no Haiti desde 2009.

Louis define essa parceria como uma relação de irmandade, luta, troca e solidariedade, e não como uma relação baseada em projetos ou aporte financeiro.

Crise de segurança e isolamento

A violência e a dificuldade de circulação no país reduziram o acesso dos pequenos agricultores aos mercados. Segundo Louis, há cinco anos a possibilidade de levar a produção para venda ou troca está praticamente interrompida. Isso afeta a renda das famílias e a compra de itens que não são produzidos em casa.

A situação também impede assembleias gerais e grandes mobilizações nacionais. A instabilidade dificulta o planejamento, enquanto o custo das passagens aéreas torna mais difícil viajar entre o Norte e o Sul do país.

O Centro Nacional de Montrouis, construído pelo movimento ao longo de 15 anos, foi invadido e saqueado em 2024. Localizado em uma região dominada por gangues armadas, o espaço ocupa 14 hectares voltados à agroecologia e era o principal centro de formação do Tèt Kole. Atualmente, está inacessível aos integrantes da organização.

A direção do movimento interpreta a crise como parte de um projeto de recolonização do Haiti e rejeita a ideia de que a violência seja resultado apenas da ação de criminosos locais. Para Henrilus, as gangues foram criadas por setores mafiosos nacionais e internacionais interessados em manter a população sob dominação e confinamento.

O Tèt Kole também defende uma mudança estrutural do Estado. Louis afirma que a organização busca a construção de um Estado popular e socialista, capaz de assumir responsabilidades em favor do país e de sua população. Para Henrilus, esse processo depende da organização popular para enfrentar o sistema de opressão.

Assim, o aniversário de 40 anos será marcado sem festa nacional, mas com a continuidade do trabalho de base. As assembleias locais devem ocupar o lugar do grande evento e manter ativa a articulação camponesa em um período de crise no Haiti.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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