Desde criança, Clara acompanhava Augusto em parte do trabalho de coleta de lixo aos sábados. Antes de sair, ele separava água, fruta e um casaco para a filha. Durante a semana, porém, fazia questão de que ela permanecesse na escola.
A menina se interessava pelos livros descartados. Quando encontrava algum em boas condições, pedia que o pai o levasse para casa. Augusto limpava as capas e guardava os exemplares, entre atlas, dicionários e manuais de ciências. A coleção despertou em Clara o desejo de estudar e conhecer novas possibilidades.
Augusto dizia que a coleta era um trabalho honesto, mas não deveria representar o futuro da filha. A frase vinha do receio de que ela enfrentasse o desgaste físico, os ferimentos e a insegurança que ele conhecia. Por isso, insistia para que Clara estudasse e pudesse escolher seu caminho.
Ela levou o conselho a sério. Usou os livros recuperados, buscou ajuda dos professores e procurou oportunidades de bolsas. Depois de conseguir uma bolsa integral para cursar medicina em outra cidade, contou com o apoio do pai para viajar. Augusto vendeu uma bicicleta antiga e completou o dinheiro necessário para a partida.
A rotina de estudos, treinamentos e trabalhos temporários reduziu o contato entre os dois. Clara concluiu o curso, começou a residência e passou a trabalhar em um hospital distante do bairro onde cresceu. Augusto guardava uma fotografia da formatura junto do atlas que havia encontrado na coleta.
Durante uma rota, ele sentiu uma pressão forte no peito e precisou de atendimento. A unidade indicada ficava justamente no hospital onde Clara trabalhava. Após a triagem, ela entrou na sala com a ficha do paciente, reconheceu o pai e assumiu parte dos cuidados.
Clara coordenou exames, explicou os procedimentos e lembrou que não havia chegado sozinha: o apoio de Augusto, os livros e a insistência dele nos estudos também faziam parte daquela trajetória.
Depois da recuperação, Augusto reduziu o ritmo por algumas semanas e passou a cuidar mais da própria saúde. Clara organizou melhor as visitas. O atlas antigo foi para uma estante do consultório, como lembrança do caminho que os dois percorreram juntos.







