A maior parte do gelo perdido pela Groenlândia e pela Antártida não desapareceu apenas por derretimento na superfície. Cerca de 84% da perda combinada ocorreu por desequilíbrio dinâmico: as geleiras passaram a enviar gelo ao oceano em velocidade maior do que conseguiam repor.
O resultado faz parte de um levantamento publicado em setembro de 2026 na revista científica Scientific Data. O trabalho reuniu 42 estimativas independentes de balanço de massa, calculadas com base em alterações na velocidade do gelo, no volume das camadas e na atração gravitacional exercida por elas. Ao todo, foram usados dados de 27 missões de satélite.
Entre 1979 e 2023, Groenlândia e Antártida perderam aproximadamente 11.309 bilhões de toneladas métricas de gelo. A quantidade equivale a cerca de 11,3 trilhões de toneladas métricas e, no sistema de medidas dos Estados Unidos, a aproximadamente 12,5 trilhões de toneladas. A perda acrescentou cerca de 3,1 centímetros ao nível médio global dos oceanos, ou 31,4 milímetros.
Ritmos diferentes nas duas regiões
As séries históricas acompanham a Groenlândia desde 1972 e a Antártida desde 1979. Para permitir uma comparação direta, os pesquisadores consideraram o período comum iniciado em 1979. Por isso, embora o resultado seja resumido como uma perda em “47 anos”, os dados combinados terminam em 2023.
Na Groenlândia, a taxa média de perda foi de cerca de 60 bilhões de toneladas por ano nos anos 1980. O ritmo chegou a aproximadamente 192 bilhões por ano nos anos 2000 e a 264 bilhões anuais na década de 2010. Considerando o intervalo entre 1972 e 2023, a região perdeu aproximadamente 6,2 trilhões de toneladas métricas, e cerca de dois terços desse total estiveram ligados ao aumento da descarga de gelo para o oceano.
A Antártida perdeu aproximadamente 4,78 trilhões de toneladas métricas entre 1979 e 2023. Esse volume elevou o nível médio dos oceanos em aproximadamente 13,3 milímetros. A Antártida Ocidental continuou registrando perdas importantes, enquanto a Antártida Oriental recebeu quantidades excepcionalmente elevadas de neve em 2022 e 2023, compensando temporariamente parte das perdas de outras áreas.
Uma redução que não mudou a tendência
Entre 2020 e 2023, a taxa de perda diminuiu temporariamente. Na Groenlândia, não houve eventos extremos de derretimento superficial comparáveis aos da década anterior. Na Antártida, o aumento da neve no leste também compensou parte das perdas no oeste.
Os autores consideram essa redução uma variação de curto prazo dentro de uma tendência mais longa. O registro mostra aceleração das perdas desde as décadas de 1990 e 2000. Águas oceânicas mais quentes podem alcançar as bordas e as partes inferiores das geleiras, favorecer o recuo e permitir que mais gelo flua para o mar.
O acréscimo no nível dos oceanos se soma à expansão térmica da água e ao derretimento de geleiras menores. Com isso, marés altas e tempestades partem de uma altura maior, facilitando a ocorrência de inundações em regiões costeiras já vulneráveis.







