Durante quase um mês, Elias encontrou um crocodilo no mesmo ponto do rio, perto da rampa de madeira onde costumava limpar os peixes. O animal aparecia primeiro parcialmente submerso e, depois, passou a ocupar a margem.
O pescador havia escolhido aquele trecho porque o nível da água estava bom e os peixes se concentravam perto de uma curva mais funda. Todos os dias, por volta das 17h, ele voltava à rampa, amarrava o barco e preparava parte da pesca antes de ir para casa.
O primeiro encontro ocorreu enquanto Elias lavava uma faca. A princípio, ele pensou ter visto um tronco, mas recuou assim que a cabeça do crocodilo surgiu. O animal ficou parado por alguns minutos e mergulhou.
Dois dias depois, voltou ao local. Na semana seguinte, Elias o viu três vezes. “O problema era justamente ele ficar parado, como se aquele lugar também fosse parte da rotina dele”, contou o pescador.
Mudança de rotina
Para reduzir o risco de um encontro, Elias deixou de limpar os peixes na rampa e passou a guardar tudo em uma caixa com gelo, fazendo o serviço em casa. Também começou a voltar mais cedo, evitou permanecer na margem depois do pôr do sol, observou o local antes de encostar o barco e nunca tentou alimentar ou espantar o animal.
A estratégia funcionou por alguns dias, até que o crocodilo apareceu perto da rampa antes das 15h. Elias decidiu inverter o horário: sair antes do amanhecer, recolher as redes rapidamente e retornar quando houvesse pouca movimentação.
Às 5h20, ainda no escuro, ele chegou com uma lanterna. A corda que prendia o barco não estava no lugar habitual. Ao iluminar a margem, viu parte da cauda e, em seguida, o corpo inteiro do crocodilo atravessado sobre a rampa. O animal cobria justamente a corda que ele precisava soltar. Elias calcula que estivesse a menos de oito metros de distância.
Ele recuou lentamente, sem gritar, lançar objetos ou puxar a corda, e esperou em uma área mais alta. Durante quase 40 minutos, o crocodilo quase não se moveu. Depois, levantou a cabeça, virou o corpo e entrou na água. Elias ainda aguardou mais alguns minutos antes de se aproximar.
Desde então, o pescador passou a usar outro ponto para colocar o barco na água e deixou de frequentar aquela margem em horários de pouca luz. Ele também conversou com outros pescadores sobre o descarte de cabeças e vísceras perto da rampa. Alguns disseram que tinham esse hábito.
O crocodilo continuou sendo visto no mesmo trecho, mas Elias não voltou a chegar tão perto. A corda permaneceu no barco, com uma parte coberta de lama e achatada pelo peso do animal. Antes de encostar em qualquer margem, ele reduz o motor, observa a água e espera alguns segundos.







