O aumento da temperatura média global deve ultrapassar 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais até 2030, reconheceu o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). A constatação está em um relatório divulgado na quarta-feira (2), pouco mais de uma década depois da assinatura do Acordo de Paris.
O documento não propõe abandonar a meta climática. Em vez disso, apresenta o modelo de ultrapassagem, pico e declínio: o aquecimento poderia superar temporariamente 1,5ºC, atingir um limite máximo e depois recuar para esse patamar ou menos. A intenção é que o retorno ocorra até 2100.
No cenário mais otimista, o pico seria de 1,8ºC. Já a trajetória baseada nas políticas e ações atuais pode levar a um aumento de 2,6ºC em relação aos níveis pré-industriais. O Pnuma afirma que cada fração adicional de aquecimento amplia os riscos, incluindo a elevação mais rápida do nível do mar, o colapso de ecossistemas como recifes de corais, ondas de calor e incêndios florestais mais extremos e mudanças na camada de gelo e neve da Terra.
Acordo de Paris e dificuldades
Assinado por mais de 190 países na COP21, em Paris, em 12 de dezembro de 2015, o Acordo de Paris busca manter o aquecimento bem abaixo de 2ºC e, idealmente, limitá-lo a 1,5ºC até o fim do século 21. Os países signatários devem renovar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas, conhecidas como NDCs, a cada cinco anos.
O Pnuma aponta dificuldades na execução dos compromissos. O relatório Emissions Gap Report registrou que as emissões de gases de efeito estufa chegaram a 57,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2024, alta de 2,3% em relação a 2023. Além disso, 25% dos países que ratificaram o acordo não renovaram suas NDCs em 2025.
O financiamento também permanece como um obstáculo. Na COP29, em Baku, países ricos se comprometeram com US$ 300 bilhões anuais para ações climáticas em países em desenvolvimento, enquanto a meta inicial era de US$ 1,3 trilhão. Na COP30, em Belém, foi estabelecida a meta de triplicar o financiamento para adaptação climática.
Medidas para conter a alta
O relatório recomenda combinar mitigação, com redução das emissões, e adaptação aos impactos já existentes. Entre as prioridades estão o fim da dependência de combustíveis fósseis, a expansão de fontes renováveis e o aumento do financiamento climático.
A remoção de dióxido de carbono, por meio de reflorestamento ou tecnologias de captura, também é considerada necessária. Segundo Pedro Torres, professor do Instituto de Biociências da Unesp e integrante do Grupo de Trabalho II do IPCC, reduzir a temperatura em apenas 0,1°C exigiria retirar e armazenar aproximadamente o equivalente a cinco anos das emissões globais atuais de CO2.
Em 2022, os subsídios globais para a exploração de combustíveis fósseis chegaram a US$ 7 trilhões, equivalentes a cerca de 7,1% do PIB mundial na época.
António Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou que o aumento acima de 1,5ºC deve ser o menor e mais breve possível. Para Torres, o limite continua relevante porque é necessário reduzir quanto a temperatura vai subir, por quanto tempo e quem será mais afetado.
A COP31 será realizada entre 9 e 20 de novembro em Antalya, na Turquia, com negociações lideradas pela Austrália. O encontro deverá discutir formas de colocar em prática medidas já anunciadas, como um mapa do caminho para a transição energética.





