A floresta amazônica consegue se regenerar depois de uma queimada, mas esse processo não garante o retorno da mata que existia antes. O resultado depende da frequência dos incêndios, da intensidade do uso anterior da área e dos organismos que permanecem vivos ou transportam sementes.
Savanas, campos e florestas de coníferas têm uma relação evolutiva com o fogo. Na Amazônia de terra firme, porém, os incêndios eram raros, associados a secas excepcionais e ao manejo indígena em pequenos mosaicos.
O que deixa a floresta mais vulnerável
Pesquisas realizadas em Paragominas, no leste do Pará, na década de 1990, analisaram combustível, umidade e microclima em quatro tipos de cobertura vegetal. Na floresta madura, mesmo depois de longos períodos sem chuva, não se estabelecia a combustão sustentada — aquela capaz de continuar sem uma fonte externa de calor.
Esse cenário mudou. A transformação da floresta em pastagem e a exploração madeireira aumentaram a vulnerabilidade da Amazônia. As mudanças climáticas também participam desse processo, mas não explicam sozinhas a presença do fogo.
Em outro estudo feito em Paragominas, as pastagens apresentaram, ao meio-dia, temperatura quase 10 °C superior à da floresta e umidade relativa 30% menor. A retirada seletiva de madeira também elevou a quantidade de material vegetal disponível para queimar, de 30 a 60 Mg/ha para 180 Mg/ha.
A regeneração varia conforme o histórico da área e a proximidade de fontes de sementes. Essas fontes podem ser trechos que sobreviveram ao incêndio, fragmentos de vegetação próximos ou animais que carregam sementes. Onde o uso foi intenso, a sucessão ficou limitada às gramíneas. Já manchas de vegetação, como as associadas ao arbusto Cordia multispicata, ajudaram a atrair aves e formar núcleos de recuperação.
Incêndios repetidos alteram a floresta
O El Niño de 2015 e 2016 matou cerca de 2,5 bilhões de caules em uma região equivalente a 1,2% da Amazônia brasileira e provocou a emissão de 495 teragramas de CO2.
Na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no Baixo Tapajós, pesquisas em florestas manejadas por populações tradicionais registraram queda de 44% na biomassa acima do solo depois de um incêndio e de 71% após dois. A área basal diminuiu 27,5% e 53,8%. O dossel também sofreu mais com o segundo fogo, com redução de 44%.
Após dois incêndios, a riqueza da fauna caiu pela metade. A floresta madura passou a ser um mosaico com predominância de espécies pioneiras de vida curta e de algumas espécies menos sensíveis às chamas. O banco de sementes do solo tinha alta densidade, mas pouca variedade de espécies.
As palmeiras foram uma exceção. Um levantamento com dez espécies mostrou maior abundância dessas plantas em ambientes perturbados, embora a riqueza não variasse entre os habitats. Com a morte das árvores grandes, a abertura do dossel aumenta a entrada de luz. As palmeiras aproveitam esse espaço, além de contar com sementes resistentes e tecidos capazes de suportar o calor.
Amazônia e cerrado respondem de formas diferentes
No cerrado, o fogo faz parte da dinâmica do ecossistema. Entre o campo limpo e o cerrado sentido restrito, as cargas de combustível variam de 7.128 a 10.031 kg/ha. As gramíneas correspondem a 91% a 94% da biomassa, e os incêndios consomem cerca de 97% do combustível fino.
Muitas plantas do cerrado têm casca espessa, estruturas subterrâneas de reserva e capacidade de rebrotar ou florescer depois da queima. As espécies amazônicas, em geral, não apresentam as mesmas características. Em florestas queimadas do leste amazônico, a mortalidade de copa ficou entre 64% e 97%. Oito meses depois, de 36% a 69% das árvores estavam mortas, sem rebrota.
Com a repetição dos incêndios, a floresta pode avançar para uma condição dominada por gramíneas e mais inflamável. Assim, a quantidade de plantas pode se recompor sem que a identidade e a diversidade originais sejam recuperadas.
Restauração com participação das comunidades
A restauração biocultural propõe combinar recuperação ambiental e conhecimento das pessoas que vivem ou mantêm relações com o território. Para essas comunidades, importa quais espécies retornam, já que uma floresta degradada pelo fogo deixa de oferecer frutos, fibras, remédios, madeira e caça.
Estudos em três comunidades indígenas da Resex Tapajós-Arapiuns mostraram que os moradores reconhecem as causas e os efeitos da degradação, identificam perdas e demonstram disposição para agir.
As ações propostas envolvem prevenir os incêndios com manejo integrado do fogo, brigadas comunitárias e redução das fontes de ignição. Também incluem conduzir a regeneração natural, enriquecer as áreas com espécies bioculturais prioritárias, apoiar redes de sementes e fortalecer a organização comunitária.
Ima Vieira é pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi, assessora da presidência e trabalha na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).





