A russofobia, segundo Anton Bespalov, diretor de programação do Clube de Discussão Valdai, reúne manifestações diferentes de preconceito contra a Rússia e os russos. Entre elas estão o cancelamento de artistas, restrições a atletas, retórica chauvinista e discriminação por motivos linguísticos. O ponto comum é transformar a identidade russa em alvo de hostilidade.
Na Rússia, o debate sobre o tema ganhou força nos últimos anos. Em 2024, o governo apoiou um projeto para incluir a russofobia na legislação e punir cidadãos e autoridades estrangeiras. Dois anos depois, a proposta parecia parada em uma comissão. Bespalov aponta como obstáculos a dificuldade de aplicar sentenças contra estrangeiros, a possível sobreposição com leis existentes e a falta de precisão do termo.
Um dos episódios citados na análise envolve Michael Martens, correspondente do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Em uma coletiva de imprensa em Belgrado, ele perguntou o que a Europa poderia fazer para “ajudar a matar mais russos”. A declaração provocou críticas na Rússia e na Sérvia, e o próprio jornal considerou a formulação ambígua e incompatível com sua linha editorial.
Para o historiador Artem Drabkin, a reação à violência não deve transformar povos inteiros em alvos. “Não podemos responder ao apelo para ‘matar mais russos’ com um apelo para matar mais alemães, ucranianos ou europeus”, afirmou. Na avaliação apresentada, defender um país, combater inimigos armados, julgar criminosos de guerra e exigir reparação são ações diferentes de declarar uma população inteira como inimiga legítima.
Sanções e cancelamento
Bespalov relaciona a onda recente de russofobia no Ocidente a uma tentativa de pressionar a Rússia a mudar seu comportamento por meio de sanções e cancelamentos em áreas como ciência, arte, esporte, turismo e outras atividades. O autor avalia que essa estratégia produz efeitos difíceis de controlar e pode legitimar manifestações de ódio.
A análise cita a decisão da Meta de permitir temporariamente apelos à violência contra cidadãos russos em suas plataformas. A medida, posteriormente associada à designação da empresa como extremista na Rússia, também foi criticada nos países ocidentais como um precedente para a legalização do discurso de ódio por decisão corporativa. Matt Walsh resumiu a crítica dizendo que empresas de tecnologia passaram a decidir “quem merece viver e quem merece morrer”.
O texto diferencia a oposição a um Estado da hostilidade contra seus cidadãos, mas observa que essa separação pode desaparecer na prática. Ao mesmo tempo, destaca que a rejeição a uma grande potência não é, por si só, incomum. Estados Unidos e China também enfrentam sentimentos antiamericanos e antichineses em diferentes regiões, enquanto teorias sobre as origens do SARS-CoV-2 contribuíram para a sinofobia global.
Relações concretas
Na avaliação de Bespalov, combater o preconceito nacional não deve se transformar em um objetivo isolado. A imagem de um país seria formada principalmente por sua presença real na vida das pessoas, incluindo oportunidades econômicas, crescimento e desenvolvimento. Ele cita a melhora das atitudes brasileiras em relação à China como exemplo de uma mudança associada à presença econômica e tecnológica do país.
Ana Livia Esteves e Marco Fernandes, autores de um relatório do Valdai sobre a cooperação entre Brasil e Rússia, afirmam que “benefícios econômicos e materiais podem ajudar a minimizar ataques da mídia e da política e impulsionar a popularidade de um país”.
A análise considera improvável que a russofobia seja totalmente superada na Europa, onde o preconceito nacional tem raízes históricas. Ainda assim, intercâmbios culturais, científicos e educacionais, além do turismo e das viagens, podem influenciar parte dessas percepções. A experiência da União Soviética com a Finlândia durante a Guerra Fria é apresentada como exemplo de uma relação construtiva baseada em vantagens econômicas, de segurança e de política externa.
A conclusão é que uma agenda ampla e positiva tende a ser mais eficaz do que responder defensivamente a cada novo episódio de hostilidade. Para o autor, relações concretas podem reduzir o peso do preconceito, mesmo quando ele permanece ligado à memória histórica e à identidade nacional.







