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Do descarte ao projeto: como o piso de caquinhos ganhou espaço nas casas

Fragmentos de cerâmica que seriam descartados viraram solução acessível, mosaico doméstico e referência da arquitetura paulistana.

Do descarte ao projeto: como o piso de caquinhos ganhou espaço nas casas
Foto: Leila Viegas/Divulgação

O piso de caquinhos chegou a um ponto curioso em sua trajetória: o material que nasceu de peças quebradas e defeituosas passou a ser tão procurado que, em determinado momento, o metro quadrado dos fragmentos custava mais do que o da lajota inteira. Décadas depois, o revestimento voltou a aparecer em projetos de arquitetura e interiores.

De sobra industrial a mosaico doméstico

A origem está ligada à produção cerâmica do ABC Paulista entre as décadas de 1940 e 1950. Na Cerâmica São Caetano, instalada desde 1913 e encerrada em 1999, eram fabricadas lajotas quadradas de 20 x 20 cm, principalmente nas cores vermelho, preto e amarelo.

Durante a manufatura, a queima e o transporte, parte das peças se quebrava ou apresentava defeitos. Trabalhadores passaram a reaproveitar os fragmentos para pavimentar os quintais de suas casas. Depoimentos preservados pela USP também registram a prática e mencionam uma trabalhadora que teria pedido os cacos à fábrica para revestir a própria residência, segundo Ana Paula Campos Gurgel, arquiteta, urbanista e professora adjunta da Universidade de Brasília.

O vermelho era a opção mais popular e barata. Preto e amarelo custavam mais e costumavam aparecer como detalhes, formando a combinação associada ao revestimento: uma base terracota com fragmentos escuros e amarelos.

A solução se ajustava aos bairros operários de São Paulo, onde os lotes compridos tinham quintais amplos na frente e nos fundos. Como muitos moradores não conseguiam comprar lajotas cerâmicas nobres para essas áreas, os cacos ofereciam uma alternativa de baixo custo, resistente à chuva e fácil de lavar.

Cada quintal, uma composição

Sem um padrão obrigatório, os moradores organizavam os fragmentos em desenhos geométricos ou mais orgânicos. Para Silvia Aline Rodrigues, arquiteta e historiadora, a variedade de formatos fazia de cada piso uma composição própria. A prática se espalhou pelas vizinhanças, saiu das vilas operárias e chegou às residências de classe média urbana paulista e, depois, a outras partes do Sudeste do Brasil.

Com o aumento da procura, as fábricas passaram a guardar os cacos em caixas de madeira ou papelão e a vendê-los por cerca de 30% do valor do piso inteiro. Na década de 1950, a quantidade de sobras não bastava para atender ao mercado. Segundo Suzane Miritz, docente do curso técnico em Design de Interiores do Senac EAD, algumas indústrias começaram a quebrar peças perfeitas de propósito para vender as caixas.

Uma origem sem autor único

Há versões que envolvem operários, uma trabalhadora da fábrica e o arquiteto Rino Levi. Uma pesquisa de Lúcio Gomes Machado, professor doutor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, indica que Levi era amigo dos proprietários da Cerâmica São Caetano e teria conhecido os fragmentos durante uma visita ao local.

Não há documentação suficiente, porém, para confirmar que ele tenha criado ou difundido o revestimento. A história também é relacionada ao trabalho de Manoel Henrique Botelho, autor de Concreto armado eu te amo, e ao reaproveitamento de lajotas quadradas e baratas, sobretudo nas tonalidades avermelhadas e pretas.

A partir dos anos 1970, a maior presença da classe média em apartamentos e condomínios reduziu os quintais onde o piso era mais usado. Nos últimos anos, a irregularidade, as cores, a memória e a liberdade de composição ajudaram a recolocar os caquinhos em projetos de casas e interiores.

Para Ana Paula, a trajetória mostra que um revestimento pode ganhar valor pelas mãos de quem habita, sem depender da criação ou da validação de um arquiteto. A técnica tem relação com tradições anteriores, como o cocciopesto romano e o trencadís catalão, mas assumiu no Brasil uma linguagem marcada por terracota, preto, amarelo e espírito de quintal.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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