SÃO PAULO — Projetado por Rino Levi e inaugurado em 1950, o Cultura Artística retomou as atividades em 2024, depois de uma reconstrução iniciada após o incêndio que atingiu o edifício em 2008. O teatro preservou elementos da arquitetura moderna e o painel Alegoria das Artes, de Di Cavalcanti, instalado na fachada.
A Sociedade de Cultura Artística foi fundada em 1912 e, durante anos, realizou atividades de forma itinerante enquanto buscava uma sede própria no centro de São Paulo. Em 1919, comprou o terreno e encomendou um projeto ao arquiteto Ricardo Severo, mas a proposta não avançou por razões financeiras. Em 1942, Rino Levi foi convidado a desenvolver um novo projeto na área remanescente.
A Prefeitura aprovou a planta em 1945. As obras começaram em agosto de 1947, e o teatro foi anunciado nos jornais, em 25 de dezembro de 1949, como um “presente de Natal” para a cidade. A inauguração ocorreu nas noites de 8 e 9 de março de 1950, com concertos preparados por Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri.
Arquitetura e vida cultural
O edifício foi concebido para receber música erudita, teatro, dança e literatura, aproximando o público de produções nacionais e internacionais. O painel de Di Cavalcanti tinha a função de levar a arte de vanguarda ao espaço público e permanecer visível para quem passasse pela rua.
Para Marcos Carrilho, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o teatro se adapta ao centro paulistano e representa um momento de adesão mais explícita aos princípios racionalistas. Frederico Lohmann, diretor-executivo do Cultura Artística, destaca a integração entre estrutura, circulação, iluminação, conforto ambiental e artes plásticas.
Na década de 1960, o espaço foi arrendado para a Rede Excelsior de Televisão. O local recebeu estúdios de gravação e um auditório para programas ao vivo, além de abrigar as primeiras telenovelas diárias da televisão brasileira. Na virada para os anos 1970, o imóvel voltou à Sociedade de Cultura Artística desgastado pelas adaptações. Uma reforma coordenada por Rino Levi e Roberto Cerqueira César levou à reabertura em 1977.
Reconstrução depois do incêndio
O incêndio de 2008 destruiu cerca de 90% das estruturas do edifício. As salas Esther Mesquita e Rubens Sverner, equipamentos e parte dos acervos foram perdidos. O painel de Di Cavalcanti, porém, foi preservado pela proteção de uma porta corta-fogo e pela estrutura do prédio.
A obra passou por uma restauração de 18 meses, coordenada pela arquiteta portuguesa Isabel Ruas, que utilizou 1,2 milhão de pastilhas de vidro. O trabalho recebeu do Iphan o prêmio de melhor obra de restauro de 2012.
O projeto de reconstrução, assinado pelo arquiteto Paulo Bruna, não reproduziu integralmente o edifício de 1950. A área interna, incluindo a antiga sala de espetáculos, o palco, os camarins e a estrutura técnica, foi refeita com sistemas contemporâneos de acústica, climatização, segurança contra incêndio e acessibilidade. Uma estrutura metálica foi criada para garantir a estabilidade da fachada e do mural durante os trabalhos.
Atualmente, o teatro tem 760 lugares e um auditório flexível de 200 assentos. O conjunto também reúne novos sanitários, cafeteria, livraria e 11 salas de ensaio. A sala principal foi reduzida em relação ao projeto original, que previa cerca de 1.500 lugares, para priorizar apresentações de música de câmara e aproximar artistas e público.
A programação atual inclui música clássica, MPB, jazz e música eletrônica. No térreo, a Livraria Megafauna e um café ampliam a conexão do edifício com a vida cultural do centro de São Paulo. O espaço também passou a receber exposições de artes plásticas, uma utilização prevista nas plantas originais de Rino Levi. A primeira mostra é da artista Luísa Matsushita, com pinturas inéditas e uma instalação sobre memórias afetivas do centro de São Paulo e do Baixo Augusta, na primeira edição do ABERTO Solo.







