SÃO PAULO — O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) volta a receber o público em setembro, após dois anos fechado para a restauração da marquise do Parque Ibirapuera e a modernização de seus espaços. A reforma, assinada pelo escritório Metrópole_arq, de Anna Helena Villela e Silvio Oksman, custou R$ 21,5 milhões.
A intervenção reorganizou os fluxos do museu e atualizou estruturas necessárias para exposições, sem romper a relação do edifício com a arquitetura de Oscar Niemeyer e Lina Bo Bardi. A transparência dos fechamentos de vidro, as divisórias móveis e a integração visual com a vegetação do parque foram mantidas.
Uma estrutura criada antes do museu
A marquise foi projetada por Oscar Niemeyer durante as comemorações do quarto centenário de São Paulo, em 1954. A cobertura curva de concreto ocupa 27 mil m² e conecta equipamentos culturais do Parque Ibirapuera, entre eles o Museu Afro Brasil, a Oca, o Pavilhão das Culturas, a Bienal e o Auditório.
O espaço atualmente ocupado pelo MAM não nasceu como um museu fechado. A área recebeu a exposição temporária Bahia no Ibirapuera, realizada simultaneamente à 5ª Bienal de São Paulo, em 1959. A mostra teve curadoria de Martins Gonçalves e expografia de Lina Bo Bardi, com cortinas penduradas na laje da marquise delimitando os ambientes expositivos.
Entre 1968 e 1969, o MAM foi instalado definitivamente no local, em projeto do arquiteto italiano Giancarlo Palanti. Mais tarde, entre 1982 e 1983, Lina Bo Bardi criou grandes painéis de vidro que ligaram o trecho ocupado pelo museu ao jardim em frente, preservando a visibilidade da estrutura de concreto.
Na década de 1990, o conjunto ganhou sala de vidro, auditório e restaurante, mantendo o diálogo com as curvas e transparências dos projetos anteriores.
Reforma e novos fluxos
O escritório Metrópole_arq entrou em contato com o projeto em 2023, inicialmente para uma proposta de ampliação. Com as obras de restauração da marquise e o fechamento temporário do museu a partir de agosto de 2024, o plano foi revisto para uma readequação dos espaços existentes.
A equipe incorporou soluções voltadas ao controle de microclima, à segurança contra incêndio e à acessibilidade. O trecho ocupado pelo MAM foi o único a manter a laje inferior original da marquise, enquanto outras áreas receberam forro de gesso durante o restauro.
Como a estrutura não poderia mais ser usada como suporte, a instalação da nova infraestrutura exigiu compatibilização entre os elementos técnicos e a construção histórica. Foram criadas lajes técnicas para acomodar caixas d’água e instalado um duto de exaustão para a coifa do restaurante.
O auditório foi nivelado com o restante do museu e recebeu uma rampa. Na recepção, guichês voltados para a marquise passaram a concentrar o controle de acesso e a bilhetagem, liberando o saguão e reorganizando a circulação entre entrada, loja e compra de ingressos.
A biblioteca ganhou espaço de consulta e acolhimento. Já a área educativa recebeu painéis perfurados para materiais de pintura e escultura.
Nas salas expositivas, uma estrutura metálica independente, fixada às vigas da laje, permite instalar obras, painéis e projetores sem perfurar ou interferir diretamente na marquise. A iluminação combina spots direcionáveis, luz indireta, trilhos eletrificados e pontos de energia e dados.
Primeira exposição após a reabertura
A retomada das atividades será marcada pela 39ª edição do Panorama da Arte Brasileira, intitulada Depois que tudo foi dito, com curadoria de Diane Lima. A exposição reúne 33 artistas de 11 estados brasileiros e propõe uma reflexão sobre o que permanece, se transforma ou surge depois do fim de determinados acontecimentos.
Em cartaz até 24 de janeiro de 2027, a mostra também inaugura o uso da nova infraestrutura do museu. As salas foram preparadas para diferentes configurações de iluminação, equipamentos e montagem.
A reforma durou seis meses e foi acompanhada pelo escritório de arquitetura em visitas semanais. Entre as mudanças, estão soluções técnicas que podem não ser facilmente percebidas pelo público, como a estrutura independente para exposições e os novos sistemas de iluminação.
Cuidados de longo prazo
Com a reabertura, o MAM passa a lidar também com a preservação contínua da instituição. Entre os cuidados previstos estão o monitoramento e a manutenção do concreto armado e da estrutura, a conservação dos vidros e das vedações, a limpeza da cobertura sob e sobre a marquise e a manutenção das redes técnicas de ar-condicionado e das tubulações.
O controle ambiental também faz parte da rotina necessária para preservar o museu, inserido no Parque Ibirapuera e submetido ao uso intenso da infraestrutura.







