SÃO PAULO — Restaurar uma obra instalada atrás dos trilhos exige mais do que reparar a superfície: a equipe precisa interromper a operação dos trens, desligar a energia da via e montar estruturas de segurança durante a madrugada. É assim que parte do programa Arte no Metrô conserva o acervo artístico espalhado pelo sistema paulistano.
O caso mais recente é o mural Sem Título (1990), de Maurício Nogueira Lima, na Estação São Bento, da Linha 1-Azul. A infiltração foi um dos principais problemas encontrados. Claudemir Ignácio, restaurador responsável pela intervenção, explica: "A água vem da rua acima e é absorvida pela parede em que a obra foi pintada." A umidade atravessa a parede e pode comprometer a camada de tinta.
Restauro entre trilhos e estações
O painel fica atrás dos trilhos, o que limita o trabalho ao período em que os trens deixam de circular. Embora a janela disponível seja, em tese, de quatro horas, a instalação e a retirada dos equipamentos de proteção reduzem o tempo efetivo de intervenção. Também podem ser necessários andaimes estruturais ou caminhões rodoferroviários, preparados para trafegar sobre os trilhos.
A atividade inclui a desenergização da via permanente. Em áreas expostas ao ambiente urbano, chuva ácida e poluição também atingem o rejunte e aceleram o descolamento de materiais.
A recomposição das cores exige identificar a tonalidade original e considerar o desbotamento e a pátina acumulados. Em alguns casos, os projetos dos artistas trazem códigos de cor. Em outros, fabricantes consultam fórmulas guardadas em seus acervos ou usam leitores espectrais. O método mais comum é retirar pequenas amostras da superfície e testar misturas diretamente na parede, até chegar à tonalidade adequada.
A orientação é preservar o máximo possível da pintura existente, com retoques apenas nas áreas em que houve perda. Quando a umidade causa danos graves, a parte comprometida é removida, recebe uma nova massa estabilizadora e depois é repintada.
Um acervo distribuído pelo transporte público
Criado na década de 1970, o Arte no Metrô reúne esculturas, murais e painéis em 36 estações das Linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 5-Lilás. As obras são assinadas por 67 nomes das artes visuais, entre eles Tomie Ohtake, Alex Flemming e Aldemir Martins. A seleção foi feita por uma comissão especializada, com presença de materiais como metal e concreto.
O programa de conservação começou em 2018. Depois de cinco edições, 39 obras foram recuperadas, o equivalente a 40% do acervo. As peças passam por análises técnicas conduzidas pela iniciativa privada.
Na Estação Sé, a escultura Sem Título, de Alfredo Ceschiatti, foi executada em bronze. A conservação se concentrou na higienização técnica e no polimento preventivo. Já o mosaico Colcha de Retalhos, de Claudio Tozzi, exigiu cerca de 50 horas de trabalho para recompor a estrutura e repor pastilhas de vidro fundido.
Parceria para manter as peças
O programa é mantido por uma parceria entre o Metrô de São Paulo e empresas privadas, permitindo a recuperação contínua do acervo sem uso direto de recursos públicos. Como parte do processo, as intervenções são registradas em fotos e vídeos exibidos nas telas da TV Minuto, dentro dos trens, e nas plataformas digitais.







