A espera de uma mulher e o retorno de um homem cheio de falhas formam um dos eixos da presença de A Odisseia nas canções de Chico Buarque. A relação aparece primeiro no conto “Ulisses”, publicado em 1966, e se espalha por letras que retomam viagens, mares, portos e o desejo de ser recebido em casa.
O herói depois da viagem
No conto, Ulisses não é apresentado como um guerreiro vitorioso. Ele volta de uma viagem como caixeiro-viajante, enfrenta dificuldades profissionais e narra aventuras em que os monstros são derrotados apenas na fantasia, na mentira ou pela malandragem. Simplório, sonhador, infantil e desamparado, ele deseja que Penélope reconheça suas grandezas apesar dos defeitos.
A esposa, porém, permanece fria e distante, concentrada no tricô. O personagem espera dela mais do que reconhecimento: quer acolhimento, consolo e abraço, além de um cuidado maternal. Em muitas canções, esse pedido encontra resposta numa mulher que espera, perdoa e recebe o homem quando ele retorna.
As referências a Homero aparecem de forma direta, com personagens, situações e expressões associadas ao conto, como “ela e seu tricô”. Também surgem indiretamente nas imagens de navios, mares, navegantes, embarcações, faróis, portos e cais.
A mulher que espera e recebe
“Ela e Sua Janela”, de 1966, apresenta Penélope durante a ausência do amado. A personagem observa a rua, imagina por onde ele anda e permanece esperando, enquanto considera a possibilidade de que ele esteja dançando, jogando ou bebendo. A canção “Sem Fantasia”, de 1967, desloca o foco para a volta: o homem chega depois de enfrentar chuvas, noites e lutas e pede os carinhos da mulher.
Em “Sem Fantasia”, a acolhida não depende de o personagem se tornar um herói. Ele é desejado justamente como alguém fraco, tolo e ainda incompleto. Como diz a canção: “Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu te quero todo meu”.
A espera também aparece em “Carolina” (1967), “Januária” (1967) e “Morena dos Olhos d'água” (1966), com possíveis competidores tentando afastar a mulher daquele que está longe. Em “Nicanor” (1969), o movimento se inverte: o personagem deixa muitas Penélopes enquanto viaja pelos mares.
Ausência, perdão e acolhimento
Em “Pedaço de Mim” (1977), a espera não termina como desejado. O barco quase chega, mas retorna ao oceano, mantendo Ulisses ausente e transformando a frustração em dor. Já “Com Açúcar, com Afeto” (1966), “Sem Açúcar” (1975), “Teresinha” (1977) e “O Meu Amor” (1978) retomam o homem malandro, moleque e molambo que volta e encontra braços abertos.
O acolhimento assume ainda uma forma maternal em “Alumbramento” (1979), como gesto de amante, e em “O Meu Guri” (1981), na relação de mãe. Em “Fica” (1965), reaparece o Ulisses do conto: um anti-herói que pede à mulher indiferente ou relutante que o escute, receba e perdoe.
No desfecho dessa trajetória, Penélope fica, recebe e perdoa Ulisses. Os dois fazem samba e amor até mais tarde e, quando a aurora surge, têm muito sono de manhã.







