Juiz de Fora, Sábado, 3 de outubro de 2026
Viver bem, todos os dias
Cultura

Entre esperas e retornos, Ulisses ganha novas canções em Chico Buarque

A figura do herói de Homero reaparece em letras de Chico Buarque como um homem falho que parte, volta e busca acolhimento.

Entre esperas e retornos, Ulisses ganha novas canções em Chico Buarque

A espera de uma mulher e o retorno de um homem cheio de falhas formam um dos eixos da presença de A Odisseia nas canções de Chico Buarque. A relação aparece primeiro no conto “Ulisses”, publicado em 1966, e se espalha por letras que retomam viagens, mares, portos e o desejo de ser recebido em casa.

O herói depois da viagem

No conto, Ulisses não é apresentado como um guerreiro vitorioso. Ele volta de uma viagem como caixeiro-viajante, enfrenta dificuldades profissionais e narra aventuras em que os monstros são derrotados apenas na fantasia, na mentira ou pela malandragem. Simplório, sonhador, infantil e desamparado, ele deseja que Penélope reconheça suas grandezas apesar dos defeitos.

A esposa, porém, permanece fria e distante, concentrada no tricô. O personagem espera dela mais do que reconhecimento: quer acolhimento, consolo e abraço, além de um cuidado maternal. Em muitas canções, esse pedido encontra resposta numa mulher que espera, perdoa e recebe o homem quando ele retorna.

As referências a Homero aparecem de forma direta, com personagens, situações e expressões associadas ao conto, como “ela e seu tricô”. Também surgem indiretamente nas imagens de navios, mares, navegantes, embarcações, faróis, portos e cais.

A mulher que espera e recebe

“Ela e Sua Janela”, de 1966, apresenta Penélope durante a ausência do amado. A personagem observa a rua, imagina por onde ele anda e permanece esperando, enquanto considera a possibilidade de que ele esteja dançando, jogando ou bebendo. A canção “Sem Fantasia”, de 1967, desloca o foco para a volta: o homem chega depois de enfrentar chuvas, noites e lutas e pede os carinhos da mulher.

Em “Sem Fantasia”, a acolhida não depende de o personagem se tornar um herói. Ele é desejado justamente como alguém fraco, tolo e ainda incompleto. Como diz a canção: “Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu te quero todo meu”.

A espera também aparece em “Carolina” (1967), “Januária” (1967) e “Morena dos Olhos d'água” (1966), com possíveis competidores tentando afastar a mulher daquele que está longe. Em “Nicanor” (1969), o movimento se inverte: o personagem deixa muitas Penélopes enquanto viaja pelos mares.

Ausência, perdão e acolhimento

Em “Pedaço de Mim” (1977), a espera não termina como desejado. O barco quase chega, mas retorna ao oceano, mantendo Ulisses ausente e transformando a frustração em dor. Já “Com Açúcar, com Afeto” (1966), “Sem Açúcar” (1975), “Teresinha” (1977) e “O Meu Amor” (1978) retomam o homem malandro, moleque e molambo que volta e encontra braços abertos.

O acolhimento assume ainda uma forma maternal em “Alumbramento” (1979), como gesto de amante, e em “O Meu Guri” (1981), na relação de mãe. Em “Fica” (1965), reaparece o Ulisses do conto: um anti-herói que pede à mulher indiferente ou relutante que o escute, receba e perdoe.

No desfecho dessa trajetória, Penélope fica, recebe e perdoa Ulisses. Os dois fazem samba e amor até mais tarde e, quando a aurora surge, têm muito sono de manhã.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Receba nossa newsletterUma seleção diária, direto na sua caixa de entrada.

As mais lidas

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5