Ursula K. Le Guin aparece em um novo livro por meio de entrevistas que percorrem quatro décadas de carreira. Em “Ursula K. Le Guin: a última entrevista e outras conversas”, lançado em julho pela editora Relicário, a escritora fala sobre gênero, ficção científica, escrita e o futuro do planeta Terra.
A conversa final foi feita pelo jornalista David Streitfeld, que entrevistou Le Guin cinco vezes entre 2015 e 2018. A autora morreu em 2018, vítima de um ataque cardíaco.
Da infância à ficção científica
Ursula Kroeber nasceu em 1929, em Berkeley, na Califórnia. Filha de dois antropólogos, cresceu cercada por histórias de diferentes culturas e mitologias, referências que influenciaram sua literatura. Na década de 1950, casou-se com Charles Le Guin. O casal se mudou para Portland, no Oregon, onde viveu até o fim da vida.
Já usando o nome Ursula K. Le Guin, ela publicou “O mundo de Rocannon”, seu primeiro romance de ficção científica, em 1966. Dois anos depois, lançou “O feiticeiro de Terramar”, primeiro livro de uma série que ampliou seu reconhecimento entre os leitores.
Outro marco foi “A mão esquerda da escuridão”, de 1969. A obra acompanha um visitante da Terra em Gethen, planeta habitado por pessoas andróginas que assumem características masculinas ou femininas durante períodos reprodutivos. Em ensaio publicado em 1976, Le Guin escreveu que eliminou a questão de gênero para descobrir o que restava. O romance recebeu os prêmios Hugo e Nebula em 1970.
A autora escreveu aproximadamente 20 romances e 100 contos.
Seis temas nas entrevistas
Sobre o rótulo de ficção científica, Le Guin dizia que ele podia ser útil para as editoras, mas não definia sua identidade literária. “Eu me sinto muito livre na ficção científica”, afirmou em entrevista publicada em 1977, acrescentando que se considerava simplesmente uma romancista.
Ao falar sobre conciliar a escrita com a família, relatou que continuou produzindo mesmo enquanto cuidava da casa, dos filhos e de um emprego em tempo integral. A declaração foi dada em entrevista publicada em 1978.
Em 1982, ao tratar de tecnologia, Le Guin rejeitou a ideia de que fosse contra ela. Disse que não duraria cinco dias na mata sem uma boa dose de recursos tecnológicos e afirmou gostar de casas e cidades.
A escritora também criticou filmes de ficção científica, que considerava intelectualmente e moralmente limitados. A fala foi publicada em 1984.
Em entrevista publicada em 2018, contou como foi compreender seu lugar no feminismo enquanto mulher adulta e mãe. Ela descreveu o processo como uma mudança de mentalidade e disse que levou muito tempo para entender que tipo de feminista poderia ser.
Sobre a velhice, Le Guin afirmou: “A velhice é quando você percebe que não consegue mais fazer o que costumava fazer.” Para ela, escrever sobre o tema também era importante porque havia poucos idosos na ficção, embora fossem tão interessantes quanto os mais jovens.








