O surrealismo brasileiro pode ser conhecido por diferentes caminhos: a pesquisa sobre religiões afro-brasileiras, a escrita automática, o erotismo, a memória e a reconstrução histórica do movimento. O poeta Guilherme Ziggy seleciona cinco livros que atravessam esses temas e momentos.
A presença surrealista no Brasil começou cedo. Na década de 1920, a revista Estética já publicava ideias ligadas ao movimento. A passagem do francês Benjamin Péret pelo país aprofundou essa relação. Ele viveu no Brasil entre 1929 e 1931 e retornou em 1955, quando investigou culturas populares, religiões de matriz africana e a resistência dos negros brasileiros.
Péret também se interessou pelo Quilombo dos Palmares e pela Revolta da Chibata. Nos anos 1940, Maria Martins ganhou destaque entre os artistas brasileiros ligados ao surrealismo. A partir dos anos 1960, o Grupo Surrealista de São Paulo reuniu nomes como Sergio Lima, Leila Ferraz, Paulo Antonio Paranaguá e Raul Fiker. Em 1967, o grupo organizou a 13º Exposição Internacional do Surrealismo em São Paulo, com a ajuda de Vincent Bounoure.
Cinco livros para conhecer o movimento
Candomblé e macumba — Benjamin Péret (100/cabeças, 2026)
Publicado inicialmente como uma série de reportagens no Diário da Noite, entre 1930 e 1931, o livro reúne relatos das experiências de Péret em terreiros cariocas. A edição traduzida por Bruno Costa apresenta as cerimônias, a cosmologia dos orixás e a vida das comunidades, além de notas e referências bibliográficas.
No temporal — Decio Bar (Massao Ohno, 1965)
A obra combina narrativa, delírio e poesia em uma “novel poema”. A associação livre e a escrita automática fazem do livro uma experiência de linguagem e liberdade.
O dia dos cinco orgasmos — Leila Ferraz (MamaQuilla, 2024)
Integrante do Grupo Surrealista de São Paulo e uma das organizadoras da 13º Exposição Internacional do Surrealismo, Leila Ferraz reúne nessa obra desejo, erotismo, corpo e maravilhoso em uma poesia livre.
A aventura surrealista — Sergio Lima (Editora da Unicamp, Editora Unesp e Vozes, 1995)
Um dos principais articuladores do surrealismo no Brasil, Sergio Lima reconstrói a história do movimento e sua trajetória brasileira. O autor apresenta o surrealismo como uma opção do espírito ligada à poesia, ao amor, à liberdade e à transformação da vida.
Volta — Claudio Willer (Iluminuras, 2000)
Memória, viagem e experiência se transformam em matéria poética. A São Paulo dos anos 1960, os encontros e a descoberta do surrealismo aparecem ligados ao acaso objetivo, ao desejo e à aventura. O livro dialoga com a tradição narrativa de André Breton, especialmente com “Nadja”, de 1928, e “O amor louco”, de 1937.
Guilherme Ziggy é poeta, tradutor, editor de obras do ocultismo e do pensamento mágico e integrante do grupo surrealista DeCollage.








