Profissionais de saúde mental alertam para o sofrimento psíquico associado à dependência em apostas virtuais, conhecidas como bets. Entre os sinais que exigem atenção estão desesperança, sensação de não encontrar saída, afastamento de familiares e amigos, aumento do consumo de álcool e mudanças importantes de comportamento.
Falas sobre morte ou sobre não querer mais viver também devem ser levadas a sério. Os especialistas defendem que a ideação suicida seja abordada de maneira aberta durante consultas e grupos terapêuticos, sem esperar que a pessoa atinja um quadro extremo para buscar ajuda.
Como a dependência pode evoluir
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que muitos pacientes procuram atendimento já com humor deprimido e ansiedade intensa por causa dos prejuízos provocados pelos jogos. Em situações mais graves, podem surgir pensamentos de morte e ideação suicida associada às perdas financeiras.
O neurocirurgião Orlando Maia, que atua no Hospital Quali Ipanema, no Rio de Janeiro, explica que a expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina no cérebro. Esse mecanismo influencia regiões ligadas ao controle das decisões e do comportamento. Com isso, o sistema de recompensa pode se sobrepor aos mecanismos de controle.
A psiquiatra Giovanna Quinet, da Clínica Revitalis, no Rio de Janeiro, ressalta que apostar não leva necessariamente à depressão e que nem toda pessoa que joga terá pensamentos suicidas. O risco aumenta quando a aposta deixa de ser eventual, ocupa espaço central na rotina, envolve perda de controle e produz consequências negativas.
Nesse ciclo, a pessoa pode aumentar os valores apostados para tentar recuperar o dinheiro perdido e esconder da família a dimensão do problema. Dívidas, conflitos familiares, prejuízos no trabalho, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento podem aparecer nesse processo. Segundo Quinet, a desesperança associada à depressão pode elevar o risco de pensamentos e comportamentos suicidas.
Família e atendimento profissional
Orlando Maia observa que muitas pessoas não reconhecem sozinhas a própria dependência e podem precisar da ajuda de familiares ou amigos. A psicóloga Claudia Feres, do Centro de Apoio Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, recomenda que pacientes e parentes procurem atendimento profissional o quanto antes.
Para Feres, uma tentativa de autoextermínio pode representar um pedido de socorro em um momento de desespero. O acolhimento deve incluir a família e a construção de estratégias que façam sentido para todos. Ela também defende que a resposta não fique restrita ao indivíduo e ao celular, mas envolva ações coletivas.
O tratamento pode incluir acompanhamento psiquiátrico e medicação. Perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não induz o ato, segundo os profissionais; a conversa pode abrir espaço para que a pessoa relate um sofrimento mantido em silêncio. As estratégias de cuidado também podem reunir medicina, psicologia e atividade física.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirma que o enfrentamento do jogo problemático depende da atuação conjunta do poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade. A entidade informa que, desde o início do mercado federal regulado, em janeiro de 2025, as empresas autorizadas passaram a operar com regras e controles específicos de proteção ao consumidor e jogo responsável.
Em caso de risco de suicídio, a orientação é não deixar a pessoa sozinha. O atendimento de urgência e o Samu podem ser acionados pelo telefone 192. Para quem está em sofrimento emocional e precisa conversar, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também é possível buscar um Caps na Rede de Atenção Psicossocial do SUS.








