FORTALEZA — Uma escala de 1 a 10 foi usada para acompanhar a vontade de viver de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. No grupo analisado, 77% mantiveram níveis elevados desse sentimento durante o período avaliado, enquanto fatores como idade, tipo de câncer, renda e presença de metástases não apresentaram influência significativa.
O estudo foi realizado por pesquisadores do Instituto do Câncer do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará (UECE), com 60 pacientes do Hospital Haroldo Juaçaba. As entrevistas aconteceram entre abril e outubro de 2023, com intervalo de três meses entre uma etapa e outra. A análise foi publicada na Revista Bioética na sexta-feira (25).
Esperança e apoio social
A manutenção da esperança ao longo do tratamento apareceu como fator protetor para a vontade de viver. A esperança elevada no começo do acompanhamento, porém, também teve associação negativa. Para a coautora Andreza Soares, isso pode refletir otimismo irrealista, raciocínio motivado ou autoengano, com risco de frustração quando a realidade da doença se impõe.
“Uma esperança mantida alta ao longo do tempo foi protetora para a vontade de viver”, afirma Soares. A pesquisadora defende a busca por uma esperança realista, capaz de sustentar o paciente sem criar falsas expectativas.
O apoio social teve resultados diferentes conforme a dimensão observada. Um nível maior de apoio afetivo no início esteve associado a uma menor vontade de viver. Na segunda etapa, a baixa interação social positiva também se relacionou à redução desse sentimento. Já as dimensões material e emocional ou informacional não mostraram associação significativa.
Segundo Soares, a relação com o apoio afetivo não significa que o afeto seja prejudicial. Uma possibilidade discutida pelos pesquisadores é que, com a progressão da doença e o aumento da dependência, o paciente passe a temer representar uma sobrecarga emocional, física ou financeira para familiares e amigos.
Aplicação na prática clínica
Depressão, ansiedade e estresse não tiveram correlações significativas na amostra e no período analisados. O perfil dos participantes era majoritariamente feminino, com média de 65 anos, baixa escolaridade, renda entre 1 e 2 salários-mínimos e ausência de vínculo empregatício para 78% do grupo.
A equipe afirma que os resultados precisam de investigação mais aprofundada, inclusive com análises qualitativas. Para a prática dos cuidados paliativos, a sugestão é incorporar a avaliação da vontade de viver à rotina. A escala criada para o estudo pode servir como ponto de partida para conversas sobre um tema complexo no atendimento.








