SÃO PAULO — Democratizar a cultura não significa apenas oferecer atividades gratuitas. Para Emiliano Zapata, diretor de Inovação da Spcine, é preciso considerar onde as pessoas vivem, como chegam aos equipamentos culturais e se conseguem se reconhecer nesses espaços.
Em São Paulo, o local de nascimento e moradia influencia as experiências culturais disponíveis. Ter um cinema perto de casa, crescer em contato com teatro, música, exposições e cursos ou encontrar essas possibilidades apenas por acaso são situações diferentes, avalia Zapata.
A distância, segundo ele, não é somente geográfica. Quando equipamentos, linguagens e oportunidades ficam concentrados em determinadas regiões, também pode surgir a sensação de que aquelas experiências não foram feitas para todos. Por isso, uma política pública precisa ampliar o acesso e a familiaridade com a cultura.
Do público ao pertencimento
Na avaliação do diretor, levar uma sessão de cinema a um território sem sala comercial é importante, mas não encerra o trabalho. Também é necessário observar o que uma criança sente ao entrar em um cinema pela primeira vez, o que um jovem imagina ao participar de uma oficina e quando alguém percebe que pode deixar de ser espectador para também criar.
Público, ocupação e número de sessões são indicadores relevantes, mas não registram sozinhos a construção de repertório. Formar público também significa criar memória, apresentar linguagens artísticas e construir familiaridade — algo que pode fortalecer o sentimento de pertencimento.
Zapata defende ainda uma mudança na forma de enxergar as periferias. Esses territórios não devem ser tratados apenas como destinos de ações culturais, porque também produzem música, cinema, dança, literatura, moda, games, audiovisual, festas e novas linguagens.
Cultura como possibilidade
A partir dessa perspectiva, iniciativas como o Futuro Gamer podem funcionar não apenas para ensinar uma ferramenta, mas para apresentar caminhos. O interesse de um adolescente por games, por exemplo, pode ser uma porta de entrada para programação, narrativa, design e tecnologia.
Essa dimensão aproxima cultura e economia criativa. Ao descobrir possibilidades de atuação em cinema, animação, roteiro, programação ou games, um jovem também pode entrar em contato com formação profissional, emprego, renda e futuro.
Para o diretor, a cultura reúne direito, experiência, identidade e oportunidade econômica. Reduzi-la ao entretenimento limita sua capacidade de transformação; tratá-la somente como mercado enfraquece sua dimensão pública; e pensar apenas no acesso pode tirar as pessoas do centro da política cultural.
São Paulo é reconhecida pela criatividade, mas continua sendo uma cidade desigual. Para enfrentar essa contradição, Zapata defende políticas que descentralizem oportunidades, experimentem formatos e cheguem a lugares onde elas ainda não avançaram na mesma velocidade.
A democratização, nessa visão, não termina quando a porta de um equipamento cultural é aberta. É preciso saber quem entra, quem volta, quem aprende, quem cria e quem passa a enxergar naquele espaço uma possibilidade para a própria vida. O objetivo é que todos possam não apenas assistir à cultura, mas também se imaginar fazendo cultura.








