A frequência com que uma pessoa precisa tomar remédios para dor de cabeça pode ser um sinal de que é necessário investigar a causa das crises. Analgésicos e anti-inflamatórios podem aliviar o episódio, mas, em algumas situações, o uso repetido está associado à manutenção ou ao aumento da frequência da cefaleia.
A orientação aparece na publicação brasileira “Medication overuse headache: position statement of specialized headache centers in Brazil”, divulgada em janeiro de 2026 na revista Frontiers in Pain Research. O trabalho reuniu a avaliação de 12 especialistas em cefaleia de diferentes estados e recomenda que os medicamentos usados durante as crises sejam limitados a, no máximo, dois dias por semana.
O que caracteriza o uso excessivo
O limite semanal serve como referência, mas ultrapassá-lo uma única vez não significa, por si só, que a pessoa tenha desenvolvido cefaleia por uso excessivo. A repetição desse padrão, porém, deve ser observada.
Pelos critérios utilizados para identificar a condição, analgésicos simples ou anti-inflamatórios podem estar relacionados ao quadro quando são tomados em 15 ou mais dias por mês durante pelo menos três meses. O problema ocorre em pessoas que já têm uma cefaleia primária, como enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional.
Por isso, a avaliação não considera apenas a quantidade de comprimidos. Também é preciso entender qual é o tipo de dor, com que frequência ela aparece e quais sintomas estão associados.
Quando procurar avaliação
Renato Gama, médico e professor da pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica do Rio de Janeiro, afirma que o uso ocasional de um analgésico é diferente da automedicação frequente.
“O sinal de alerta é quando o medicamento deixa de ser uma solução eventual e passa a fazer parte da rotina para controlar a dor”, explica o neurologista.
A procura por atendimento é indicada quando a dor muda de padrão, aparece mais vezes, fica mais intensa ou começa a atrapalhar as atividades do dia a dia. Também merece atenção o uso do medicamento para tentar impedir que a dor volte, em vez de tratá-la apenas durante uma crise.
Tratamento depende do tipo de cefaleia
O estudo indica que o cuidado pode incluir a suspensão do remédio usado em excesso, medidas para controlar o período de transição e, quando necessário, tratamento preventivo. O acompanhamento médico após o início da abordagem também é apontado como parte importante do manejo.
Para pessoas com crises recorrentes, Gama destaca que é necessário investigar condições como enxaqueca e cefaleia tensional, em vez de apenas escolher o próximo medicamento. A frequência dos episódios, os sintomas, os remédios já utilizados e o histórico do paciente entram nessa avaliação.
Uma dor de cabeça súbita e muito intensa exige atendimento, assim como episódios acompanhados de alteração da fala, fraqueza, confusão mental ou perda de consciência. Nesses casos, a orientação é buscar atendimento. Para quem usa remédios com frequência, investigar a origem das crises ajuda a interromper o ciclo de automedicação e a definir o tratamento adequado.







