ESTEIO — Uma pesquisa com 662 agricultores familiares de 34 municípios do Rio Grande do Sul identificou pressões sobre a produção, a renda e a continuidade das famílias no campo. O levantamento foi apresentado em um seminário da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS), realizado na quarta-feira (2), durante a Expointer, em Esteio.
Desenvolvido pela Fetraf-RS com pesquisadores de cinco universidades, o estudo deu origem ao livro “Agricultura Familiar em Transformação: Realidade da Agricultura Familiar na Base da Fetraf-RS”. A publicação reúne informações sobre produção, comercialização, políticas públicas, organização sindical e perspectivas para as propriedades.
Entre os principais pontos estão a especialização produtiva, o envelhecimento da população rural, os obstáculos à sucessão familiar, a concentração de terras e a dependência de insumos e tecnologias externas. Os grãos aparecem em 77,2% das unidades analisadas.
A pesquisa também mediu os planos das famílias. Do total, 45,8% pretendem investir em melhorias e 53,8% querem manter a propriedade como está. Outros 16,6% avaliam arrendar a área, enquanto 5,3% consideram vender a terra ou deixar a atividade.
Alternativas para produção e comercialização
O trabalho começou em 2021, quando a Fetraf-RS decidiu reunir informações sobre a realidade de sua base. Para isso, a entidade buscou a colaboração de universidades, levantou pesquisas já existentes e elaborou questionários para agricultores e dirigentes sindicais. Os participantes foram sorteados, e os instrumentos foram aplicados por pesquisadores.
A partir do diagnóstico, a federação defende diversificação, autonomia, garantia de renda, cooperação, assistência técnica e ampliação dos circuitos curtos de comercialização. A proposta também inclui sistemas produtivos mais adequados às pequenas propriedades.
O coordenador-geral da Fetraf-RS, Douglas Cenci, afirmou que a discussão envolve as condições de vida no campo, além das técnicas e culturas adotadas. “Discutir modelo também é discutir vida”, disse. Ele associou o endividamento e a pressão do modelo produtivista ao sofrimento psicológico dos agricultores e defendeu que qualidade de vida, identidade e perspectivas de futuro sejam consideradas.
As mudanças climáticas foram outro eixo do debate. Secas, enchentes, vendavais e granizo ampliam os riscos para famílias que dependem da produção agrícola. A Fetraf-RS avalia que a resposta não deve se limitar ao apoio depois dos desastres: também é necessário reduzir custos, preservar o solo e aumentar a autonomia das propriedades.
Preço, trabalho e políticas públicas
O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sérgio Schneider, destacou que muitos agricultores têm pouca influência sobre o valor recebido pela produção. Segundo ele, a necessidade de vender no período da colheita ou quando o alimento está pronto reduz a margem de negociação com compradores e intermediários.
Schneider apontou compras públicas e mercados de proximidade como possibilidades para melhorar a remuneração, embora essas alternativas não absorvam toda a produção. Ele também defendeu investimentos em pesquisa e extensão rural diante das mudanças climáticas.
Everton Lazzaretti Picolotto, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), abordou as condições de trabalhadores contratados temporariamente em cadeias da soja, pecuária e fruticultura. Ele citou a participação de agricultores familiares, assentados, indígenas, migrantes de outros estados e trabalhadores estrangeiros nas atividades de colheita e ressaltou a necessidade de fortalecer os sindicatos.
A professora Catia Grisa, da UFRGS, afirmou que programas públicos dependem de equipes, orçamento, extensionistas e estrutura para chegar aos territórios. Vinícius Frizzo Pasquotto, do governo federal, reconheceu dificuldades na execução das políticas e disse que o crédito pode acabar reproduzindo o padrão produtivo predominante em cada região.
Para a Fetraf-RS, o desafio agora é transformar o diagnóstico em ações que articulem renda, condições de trabalho, adaptação climática e permanência no campo. O seminário também marcou o lançamento de três publicações sobre mercados, sindicalismo, trabalho rural e políticas alimentares.







