CEILÂNDIA — O Festival Elemento em Movimento terminou com uma noite dedicada à história e às transformações do hip-hop brasileiro. No domingo (6), o show do Câmbio Negro reuniu Thaíde e Zé Brown, além da participação da rapper Ana Preta como vocal de apoio.
Realizado em Ceilândia, no Distrito Federal, o festival também teve apresentações de Kirá e a Candangaria, Pratanes e Emicida no palco principal. A performance do Câmbio Negro combinou rock pesado, samples de rap antigo, soul, break, candomblé e capoeira, com mensagens contra o racismo e a segregação territorial.
Para a skatista e estudante de Letras Viviane Ferreira, moradora de Ceilândia e fã de Emicida, a apresentação aproximou o público da trajetória do hip-hop. “Foi uma oportunidade de conhecer um pouco mais da história do hip-hop e, ao mesmo tempo, ver que essa cultura continua muito viva”, afirmou.
Marcos Vinícios, ouvinte de Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro e Faces do Subúrbio desde anos 1990, levou o filho para acompanhar o show. Ele destacou a presença de artistas ligados à história do rap brasileiro no mesmo palco.
Thaíde e a formação do rap
Nascido em São Paulo em 1967, Altair Gonçalves adotou o nome Thaíde ao iniciar sua trajetória na cultura hip-hop, ainda nos anos 1980, na periferia da Zona Sul. O primeiro contato com o movimento ocorreu por meio do break, com influência de Nelson Triunfo.
Thaíde participou da formação das crews Panteras Negras, Dragon Breakers e Back Spin, que se apresentavam na Rua 24 de Maio e na Estação São Bento. Depois, passou a trabalhar também como MC e compositor e formou com DJ Hum uma das duplas pioneiras do rap brasileiro, que ganhou notoriedade nos anos 1990.
Ao falar sobre os bailes black, Thaíde afirmou que eles funcionavam como espaços de resistência cultural e de encontro para a juventude negra e periférica. Para ele, os eventos ajudavam a criar vínculos entre pessoas que muitas vezes viviam no mesmo bairro, mas não se conheciam.
A transição para o rap, segundo o artista, aconteceu de forma natural, à medida que as músicas mudaram e passaram a ser conhecidas como funk falado. A experiência com a dança também facilitou sua aproximação com o rap e com o break.
Antes do primeiro disco, Thaíde participou da coletânea Hip Hop Cultura de Rua, de 1988, com as músicas Homens da lei e Corpo fechado. O projeto reuniu grafiteiros, DJs, MCs e B-Boys ligados às gangs de break que frequentavam a Estação São Bento.
Zé Brown mistura rap e cultura popular
Zé Brown nasceu em 1974 e começou no hip-hop em 1988, ligado ao break e à cena de Alto José do Pinho, no Recife. Sua trajetória inclui a participação no grupo Faces do Subúrbio e a combinação do rap com coco, embolada, repente, rock e hardcore.
Criado entre Nazaré da Mata e Alto José do Pinho, Brown teve contato com manifestações como caboclinho, frevo, maracatu, ciranda, partido-alto, repente e embolada. Em 1988, fez seu primeiro laboratório de rima unindo rap e embolada.
Atualmente, ele apresenta o projeto “Zé Brown e o Coco Pesado”, que combina rap e ritmos tradicionais. Também trabalha como educador no Instituto Cultural Educacional Matéria Rima, em Diadema (SP), com oficinas de rima e pandeiro.
Em 2026, Brown prepara o álbum “Repertório Sagrado”, com participações de Lia de Itamaracá, Nando Cordel, Thaíde, Caju & Castanha, Nação Zumbi e Marcelo D2. O artista também participa de uma campanha de combate ao feminicídio.
Ao comentar a produção musical atual, Brown avaliou que a tecnologia ampliou as possibilidades para novos artistas. Ele citou grupos que misturam rap com forró tradicional, pé de serra, candomblé e samba, além de nomes como Rapadura, Opanijé, Rappin’ Hood e Marcelo D2.







