Juiz de Fora, Sábado, 3 de outubro de 2026
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Colômbia teve campanha digital com IA, bots e financiamento oculto

Investigação sobre a eleição colombiana aponta anúncios não declarados, redes automatizadas e influência externa na disputa vencida por Abelardo de la Espriella.

Colômbia teve campanha digital com IA, bots e financiamento oculto

A Meta desativou em 15 de maio de 2026 a página colombiana “Está en Nuestras Manos”, que mantinha cerca de 260 anúncios políticos ativos e acumulava violações das regras de transparência eleitoral. A medida ocorreu 17 dias antes do primeiro turno, depois que conteúdos com personagens criados por inteligência artificial já haviam alcançado milhões de eleitores.

O caso faz parte de uma estrutura de manipulação digital associada à eleição presidencial vencida por Abelardo de la Espriella, em maio de 2026, por menos de um ponto percentual. A jornalista e analista digital colombiana Susan Pérez afirma que a campanha combinou anúncios segmentados, contas automatizadas, vídeos falsos, apoio internacional e financiamento não declarado.

Anúncios feitos para parecer relatos espontâneos

A página investigada se apresentava como um espaço cidadão independente. Entre os anúncios, havia vídeos com imagens geradas por inteligência artificial de uma padeira, um comerciante e um agricultor. Os personagens apareciam como se fossem pessoas reais relatando insatisfação com o governo e preocupação com o futuro do país.

O investimento digital foi concentrado em quatro territórios: Bogotá, Valle del Cauca, Antioquia e Atlántico. Esses locais receberam 80% dos recursos destinados aos anúncios, segundo o levantamento citado na análise de Pérez. Outra página, chamada Todo puede ser mejor, contou com influenciadores da região litorânea e divulgou deboches, ataques e informações manipuladas.

A estratégia usava microtargeting, com cruzamento de dados de redes sociais para levar mensagens diferentes a grupos específicos. Dessa forma, anúncios políticos podiam circular entre determinados perfis sem que fossem vistos pela maior parte da população ou pelos órgãos de fiscalização.

Pérez também identificou uma página que publicou mais de 1.100 vídeos, com 380 milhões de visualizações. Os materiais apresentavam repórteres hiper-realistas criados por inteligência artificial, com sotaque colombiano e entrevistas de rua fictícias. Dos 50 vídeos verificados pela pesquisadora, todos favoreceram De la Espriella.

Bots e circulação em grupos privados

A analista estima que, entre as 6 milhões de contas colombianas no X, 2 milhões fossem bots administrados por IP móvel e proxy móvel. O Cloudflare Radar registrou 57,5% de tráfego automatizado, enquanto o Ministério das Tecnologias de Informação e Comunicações da Colômbia desativou 5,1 milhões de IPs falsos.

A circulação em aplicativos de mensagem teve papel central. Em grupos familiares ou de trabalho, o conteúdo falso era compartilhado por pessoas ligadas por relações de confiança. Para Pérez, a criptografia dificulta a auditoria, enquanto a proximidade entre os participantes aumenta a aceitação das mensagens.

Entre agosto de 2025 e maio de 2026, foram registradas 43 mentiras contra o candidato progressista. A lista incluía montagens produzidas com IA, pesquisas falsas e boatos sobre perda de seguidores. A investigação também apontou cerca de 110 contas voltadas a atacar o jornalismo público, veículos de fachada, pesquisas irregulares da Atlas Intel e a percepção sobre plataformas de apostas, como a Polymarket.

Projeto Júpiter e dinheiro sem identificação

Uma investigação atribuiu a Jaime Bermúdez Merizalde, ex-assessor de comunicações do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez e ex-chanceler da Colômbia, a articulação do Projeto Júpiter. O esquema teria usado medo, indignação e incerteza para atingir o governo de Gustavo Petro e candidaturas progressistas, como a de Iván Cepeda.

Em áudios de reuniões com empresários, Bermúdez afirmou ter arrecadado cerca de 7 bilhões de pesos colombianos, com a promessa de preservar os nomes das empresas financiadoras. Desde maio de 2025, a estrutura teria produzido mais de 1.700 peças digitais, em um ritmo de cerca de 40 materiais por semana. A estimativa dos organizadores era alcançar mais de 17 milhões de pessoas nos 32 departamentos da Colômbia.

Pérez citou ainda 800 milhões de pesos gastos no Facebook por seis contas coordenadas sob nomes de organizações cidadãs. A operação não usava logomarcas nem assinaturas oficiais, o que dificultava identificar responsáveis e financiadores.

Apoio de Trump e reação internacional

A influência externa ganhou visibilidade na reta final da disputa. Donald Trump publicou três mensagens pedindo votos para De la Espriella e prometendo apoio total do governo dos Estados Unidos. Congressistas republicanos também mobilizaram colombianos que vivem no exterior, grupo apontado por Pérez como decisivo para o resultado.

A pesquisadora mencionou ainda a prisão do ativista Beto Coral, que havia pedido aos colombianos nos Estados Unidos que não votassem em Espriella. A detenção ocorreu acompanhada de um memorando do secretário de Estado Marco Rubio, que o acusou de interferir na política externa estadunidense. Uma delegação ligada ao entorno de Trump participou do encerramento da campanha de De la Espriella em Barranquilla.

Em fevereiro de 2026, Petro e a Casa Branca haviam assinado um acordo de não intervenção, posteriormente apontado como violado. Em maio de 2026, foi exposto o vazamento de 1,4 milhão de dados. A Misión de Observación Electoral informou que 74% das narrativas falsas buscavam distorcer o processo eleitoral.

Em junho de 2026, a Chancelaria colombiana repudiou a ingerência externa, e Petro levou a denúncia à ONU. Vinte congressistas democratas dos Estados Unidos e eurodeputados pediram investigações. O Conselho Nacional Eleitoral tomou medidas relacionadas a irregularidades na Polymarket e na Atlas Intel.

Petro também afirmou que a intervenção estrangeira teria envolvido recursos e apoio externo para manipular o sistema de contagem de votos. O presidente apresentou ações judiciais para pedir a anulação do pleito e alegou que alterações em algoritmos de formulários comprometeram a legitimidade do resultado. Essas acusações foram apresentadas pelo mandatário colombiano após as eleições.

O alerta para o Brasil

Para Susan Pérez, a ausência de regras que obriguem plataformas a revelar quem financia conteúdos impulsionados ou campanhas orgânicas favoreceu a operação. A Colômbia permanece submetida à Lei 1909 de 2018, enquanto o Projeto de Lei 2630, no Brasil, foi barrado por 683 ações de lobby em um ano. O país brasileiro, segundo a análise, conta com regras do Tribunal Superior Eleitoral sobre inteligência artificial e deepfakes.

A pesquisadora recomenda diferenciar pesquisas eleitorais de casas de aposta, observar discursos antecipados sobre fraude e ter cuidado com conteúdos produzidos por inteligência artificial e mensagens em grupos privados. Ela também defende atenção a mídias simuladas, linchamentos virtuais e à distância entre o que circula nas redes e a realidade fora delas.

“As redes sociais não refletem a totalidade do eleitorado”, afirmou Pérez. Para ela, a participação direta dos cidadãos deve ser valorizada, inclusive no período posterior à eleição.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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