Juiz de Fora, Sábado, 3 de outubro de 2026
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Por que o cuidado também é uma pauta de desenvolvimento no Brasil

Dados mostram como a sobrecarga do cuidado se relaciona às desigualdades de raça, gênero e renda no país.

Por que o cuidado também é uma pauta de desenvolvimento no Brasil

O cuidado tem impacto direto sobre emprego, renda, produtividade e mobilidade econômica, mas ainda é tratado principalmente como uma responsabilidade privada das famílias. A avaliação é de Vera Carvalho Oliveira, mestra em políticas públicas pelo Insper, reconhecida como Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial e fundadora do Instituto C.

Atividades como acompanhar crianças, idosos e pessoas com deficiência organizam a vida cotidiana e permitem que milhões de brasileiros trabalhem, estudem e produzam. Quando falta uma rede de apoio, mulheres podem deixar o mercado de trabalho ou interromper a formação profissional, com efeitos sobre a renda das famílias.

Desigualdades concentradas

A distribuição do cuidado no Brasil é marcada por gênero, classe e raça. Mulheres negras ocupam historicamente funções de cuidado em casas, comunidades e serviços essenciais, incluindo o trabalho doméstico remunerado ou não. Embora correspondam a cerca de 28% da população brasileira, estão entre os grupos com menor renda, menor acesso ao ensino superior e maior exposição à pobreza, à informalidade e à violência.

O Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, do Ipea, indica que mulheres e homens negros formam cerca de 80% dos 10% mais pobres do país. Entre as mulheres negras, 14% concluem o ensino superior; mais de 2,8 milhões são analfabetas e aproximadamente 11,4 milhões não terminaram o ensino fundamental. A renda domiciliar média desse grupo é de aproximadamente R$ 1.402, menos da metade da registrada entre homens brancos.

No mercado de trabalho, dados da Pnad Contínua, do IBGE, mostram que, em 2023, 3,6 milhões de mulheres pretas ou pardas estavam fora da força de trabalho. Entre as mulheres brancas, eram 1,5 milhão. Em 2025, 70% das famílias acompanhadas pelo Instituto C se autodeclaravam pretas ou pardas.

Uma política com alcance nacional

A aprovação da Política Nacional de Cuidados, em 2024, reconheceu o cuidado como um direito e orientou a articulação entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil. A efetividade da política depende de financiamento contínuo, cooperação entre os níveis de governo e metas que transformem as diretrizes nacionais em serviços acessíveis nos territórios.

A proposta é que o cuidado seja considerado também uma política de desenvolvimento. O tema atravessa educação, saúde, trabalho, habitação, segurança pública e desenvolvimento econômico. Por isso, governos, organizações da sociedade civil, empresas, academia e organismos internacionais precisam atuar de forma articulada.

Autonomia antes da renda

A experiência do Instituto C com famílias em situação de vulnerabilidade indica que a mudança pode começar pelo acesso a direitos, pela recuperação da autoestima e pela construção de uma rede de apoio. A ampliação da autonomia econômica aparece depois desse processo.

Em 2025, 95% das famílias atendidas ampliaram o acesso a direitos e serviços públicos; 82% desenvolveram maior autonomia; 78% fortaleceram a autoestima; e 87% ampliaram a rede de apoio. Também houve adoção de hábitos alimentares mais saudáveis para 81% das famílias, aumento da participação na vida escolar das crianças e adolescentes para 66% e aumento de renda para 42%, com crescimento médio de 105%.

Os resultados são apresentados como indicação de que a autonomia pode anteceder a melhora da renda e contribuir para que ela seja sustentável. A redução das desigualdades, portanto, exige mais do que transferência de renda ou geração de empregos: envolve capacidades humanas, vínculos familiares, informação e garantia de direitos.

Para Vera Carvalho Oliveira, reconhecer o cuidado como parte da agenda estratégica é necessário para enfrentar desigualdades e aproximar desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano.

Texto produzido pela Redação Horizonte Leve com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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