A defesa da laicidade do Estado deve estar no centro do debate eleitoral, afirma Makota Celinha Gonçalves em artigo de opinião. Para ela, a associação entre fé e projetos de poder tem sido usada para enfraquecer instituições, estimular a intolerância e influenciar o voto de pessoas cristãs.
Religião como instrumento político
A autora avalia que o país atravessa uma crise institucional marcada por tentativas de desestabilizar e descredibilizar as instituições e o Estado brasileiro. Nesse ambiente, políticos da extrema direita recorreriam à religiosidade para disseminar ódio, desrespeito e intolerância.
Na análise de Celinha, a falta de limites para discursos apresentados em nome de Deus permite a defesa de ideias racistas, misóginas, machistas e homofóbicas. Ela afirma que essa apropriação da religião busca impor uma visão de sociedade que não seria plural, democrática nem humanizadora.
O apoio do eleitorado cristão, segundo a autora, expõe uma crise ética de parte daqueles que se apresentam como cristãos. Princípios como caridade, amor ao próximo e comunhão entre as pessoas seriam deixados de lado quando a fé passa a sustentar ideias da extrema direita.
A disputa pelo voto cristão
Celinha também critica a transformação da religiosidade em ferramenta para combater a corrupção política. Na avaliação dela, a fé é apresentada como meio de redenção da pátria, enquanto a relação entre Deus, família e pátria ocupa o centro de determinados discursos políticos.
A autora identifica, nesse processo eleitoral, uma tentativa de eleger um projeto de poder teocrático, no qual a fé serviria ao exercício da autoridade. Ela relaciona esse movimento ao crescimento da violência e ao afastamento da convivência racional entre pessoas diferentes.
O artigo ainda menciona a presença de igrejas cristãs de origem neopentecostal em áreas de baixa renda e pobreza absoluta. Para Celinha, algumas lideranças usam comunicação fácil e recursos que considera inadequados para mobilizar desejos e ideias dos fiéis, com promessas de vida eterna e felicidade coletiva condicionadas à radicalidade da fé.
Ela também critica o uso de textos religiosos fragmentados e desconectados da realidade para sustentar uma moral rígida. Nesse contexto, dogmas cristãos seriam convertidos em bandeiras eleitorais e candidatos se aproveitariam da comoção coletiva para fazer discursos que a autora classifica como perigosos, inconsequentes e inconstitucionais.
Defesa da liberdade religiosa
A autora afirma que a instrumentalização da fé ameaça a democracia e a liberdade religiosa. Ela recorda que tradições e religiões de matrizes africanas foram alvo de ataques antes de a Igreja Católica também passar a ser atingida por esse tipo de discurso.
Na avaliação de Celinha, a ausência de apoio às comunidades historicamente discriminadas contribuiu para que o problema fosse tratado como restrito a um grupo. Com os ataques ao mundo católico, porém, a questão teria se tornado uma ferida coletiva e exigiria uma resposta à altura de sua gravidade.
Para ela, a polarização atingiu o próprio significado do voto, que deveria expressar a vontade das cidadãs e dos cidadãos sobre a organização do Estado brasileiro. O debate, afirma, passou a se concentrar em como votar para preservar ou eliminar a laicidade, em vez de discutir a construção de um país democrático e de direito.
Makota Celinha Gonçalves é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka, coordenadora-geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab) e recebeu o título de doutora honoris causa pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal).








