A Independência do Brasil, celebrada em 7 de setembro, não se resumiu ao grito de Dom Pedro I às margens do riacho Ipiranga. O processo foi mais longo, envolveu disputas políticas, conflitos armados e participação popular, de acordo com o sociólogo Rubens Goyatá Campante, doutor em sociologia pela UFMG e pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (CERBRAS).
A transformação da América portuguesa em um país unitário não estava definida antes da emancipação. Até o início de 1800, a região reunia os vice-reinados do Brasil e do Grão-Pará e Maranhão, com áreas que tinham pouca comunicação entre si. A chegada da Corte portuguesa, em 1808, durante as guerras napoleônicas, contribuiu para aproximar esses territórios e elevou a colônia à condição de Reino Unido de Portugal.
Em 1820, um movimento nacionalista e liberal em Portugal exigiu o retorno de Dom João VI e a recolonização da América portuguesa. As elites estabelecidas no Brasil se opuseram à medida e passaram a conduzir, ao lado do príncipe que permanecera no Rio de Janeiro, o processo de emancipação.
Revoltas e guerras civis
A separação não ocorreu de maneira rápida ou pacífica. Na Bahia, a presença de portugueses contrários à emancipação levou a um conflito armado. Em Pernambuco e no Nordeste, a reação à Constituição centralizadora outorgada por Pedro I resultou na Confederação do Equador. Os dois confrontos tiveram participação popular.
Com a renúncia de Dom Pedro I, em 1831, começou o período regencial, já que Dom Pedro II tinha 5 anos. A unidade territorial ficou ameaçada por conflitos que, segundo o autor, não devem ser tratados como simples rebeliões. Na Bahia, a revolta dos Malês, em 1835, envolveu pessoas escravizadas e libertas convertidas ao islamismo. A Sabinada, iniciada em 1837, provocou a morte de cerca de 2 mil pessoas em uma população aproximada de 70 mil habitantes.
A Balaiada, no Maranhão, terminou com 5 mil mortos. No Rio Grande do Sul, a Guerra dos Farrapos se estendeu de 1835 a 1845. No Pará, a Cabanagem deixou entre 30 a 40 mil vítimas, mais de 20% da população de uma província com 150 mil habitantes.
Ao citar o historiador Francisco Iglésias, Campante resume: “a separação de fato custou sangue, sacrifícios”. Para o autor, grande parte desse custo foi suportada pelo povo.
Elites e soberania nacional
Na avaliação apresentada no artigo, as elites foram os grupos mais organizados durante a formação do país. Elas reprimiram os conflitos e preservaram uma estrutura social e econômica oligárquica baseada na escravidão. O resultado teria sido um Estado unitário, mas separado da nação e da população.
Campante também classifica como entreguista parte das camadas dirigentes brasileiras, por considerar que elas não mantiveram, salvo exceções, compromisso com o desenvolvimento e a soberania nacionais. O autor relaciona essa crítica ao apoio dado por setores da mídia comercial à candidatura presidencial do filho de Jair Bolsonaro.
O artigo afirma ainda que esse grupo político e seus apoiadores defendem medidas como a aplicação de tarifas extras dos Estados Unidos sobre a economia brasileira, o fim do Pix e a entrega de recursos de terras raras. Também critica a aproximação simbólica com os Estados Unidos, citando uma manifestação de 7 de setembro em que foi inflado um boneco de Donald Trump.
Para Campante, a disputa eleitoral brasileira tem relação com a soberania do país e com a preservação de direitos. Ele sustenta que impedir a vitória do filho de Jair Bolsonaro seria necessário para evitar uma ditadura e preservar a independência nacional.
O texto é um artigo de opinião, e a visão apresentada é de responsabilidade do autor, sem necessariamente expressar a linha editorial do jornal.







