A independência de Moçambique foi precedida pela articulação de grupos políticos formados por jovens que deixaram o país a partir da década de 1950. Em meio à exploração e à humilhação provocadas pelo domínio português, eles buscaram apoio e organizaram atividades de militância na Tanzânia, no Zimbábue, na Zâmbia, no Malawi e em outros países vizinhos.
Essas iniciativas deram origem à União Democrática Nacional de Moçambique (UDENAMO), à União Nacional Africana Moçambicana (UNAM) e à União Nacional Africana de Moçambique (MANU). Em 1962, as organizações se unificaram e formaram a Frente de Libertação de Moçambique, conhecida pela sigla FRELIMO.
A formação da frente de libertação
O sociólogo e pesquisador moçambicano José Luís Muchanga explica que Eduardo MondLane teve papel na articulação entre os grupos. Professor de universidade, formado em antropologia e sociologia e funcionário das Nações Unidas, MondLane estava radicado nos Estados Unidos da América quando acompanhou a movimentação política dos moçambicanos na diáspora.
Segundo Muchanga, ele foi à Tanzânia para estimular a união das organizações e criar um movimento único. A FRELIMO não surgiu inicialmente como partido, mas como uma frente de libertação. A distinção é importante porque, em 1977, apareceu a Frelimo partidária, escrita com letras minúsculas, enquanto a sigla em maiúsculas identifica a organização formada para conduzir a luta anticolonial.
A decisão pela luta armada esteve relacionada à avaliação de que Portugal não concederia a independência de maneira amigável às colônias africanas. De 1962 a década de 1970, a FRELIMO enfrentou conflitos internos e períodos de avanço e retrocesso, mas manteve o objetivo de construir uma unidade capaz de alcançar a libertação nacional.
Colonização e fronteiras
A ocupação portuguesa de Moçambique se estendeu formalmente por mais ou menos 500 anos, mas, na avaliação de Muchanga, o projeto colonial só se consolidou de forma efetiva no final do século XIX. A Conferência de Berlim estabeleceu regras para a ocupação e o comércio europeu na África e delimitou fronteiras sem a consulta dos povos dos territórios repartidos.
Por volta de 1890, foram consolidadas as fronteiras da região norte de Moçambique. Outro marco citado pelo pesquisador ocorreu em 1895, quando o considerado último imperador de Gaza, no sul do país, foi preso e exilado para os Açores, em Portugal. Para Muchanga, esse episódio simboliza a consolidação da ocupação de Moçambique.
Portugal também dividiu a administração do território entre companhias econômicas, que receberam direitos para atuar de forma autônoma nas regiões norte e central. A medida esteve ligada à dificuldade de Portugal, descrito pelo pesquisador como um dos países economicamente desfavorecidos da Europa, de controlar todo o território.
A colonização foi acompanhada pela exploração de recursos e pelo tráfico de pessoas escravizadas. Entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, aproximadamente 300 mil a 400 mil pessoas escravizadas saíram de Moçambique para o Brasil. Esse contingente correspondeu a cerca de 10% a 12% dos quase 5 milhões de africanos desembarcados à força no país durante o período colonial e imperial.
Após 1800, o tráfico pela costa oriental africana cresceu com o endurecimento da fiscalização inglesa sobre os portos da costa ocidental. Pessoas escravizadas de Moçambique, frequentemente chamadas de bantos, desembarcaram principalmente nos portos do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Bahia, onde foram destinadas às plantações de cana-de-açúcar e às zonas urbanas.
A transição para a soberania
Em 1974, dois fatores enfraqueceram a capacidade portuguesa de manter a guerra: as baixas sofridas pelas forças portuguesas em Moçambique e a Revolução dos Cravos, ocorrida em abril daquele ano, em Portugal. O movimento provocou uma mudança na liderança política portuguesa e abriu caminho para uma nova forma de governo.
Na avaliação de Muchanga, a transformação política em Portugal reduziu as condições para a continuidade da guerra nas colônias. O processo também coincidiu com movimentos de independência em outros territórios africanos de língua oficial portuguesa. Guiné-Bissau alcançou a independência em 1974; Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe chegaram à independência em 1975.
Os Acordos de Lusaka, assinados em 1974, estabeleceram o cessar-fogo e definiram o caminho para a transição de poder. Moçambique tornou-se independente oficialmente em 25 de junho de 1975, depois de cerca de cinco séculos de domínio colonial português.
Para o pesquisador, a independência foi uma conquista central, mas não significou automaticamente independência econômica, social e espiritual. Essa diferença, afirma, tornou-se uma questão importante nos anos que se seguiram à emancipação política do país.








