O Movimento de Regeneração Nacional (Morena) chega aos 15 anos com maioria no Congresso mexicano e presença dominante nos governos estaduais. Criado como associação civil, o grupo levou Andrés Manuel López Obrador à Presidência em 2018 e Claudia Sheinbaum ao cargo em 2024.
Na Câmara dos Deputados, o Morena ocupa 254 dos 499 assentos preenchidos. A soma com o Partido Verde Ecologista do México (PVEM), que tem 60 deputados, e o Partido do Trabalho (PT), com 49, forma uma bancada de 363 parlamentares. No Senado, o partido reúne 66 das 128 cadeiras, enquanto a coligação chega a 86.
Da associação civil ao partido
O Morena foi constituído como associação civil em 2 de outubro de 2011, no Auditório Nacional, na Cidade do México. Naquele momento, López Obrador ainda fazia parte do Partido da Revolução Democrática (PRD), mas setores que apoiavam sua candidatura já não se identificavam com a legenda.
De acordo com Oscar Lemus, internacionalista e coordenador-geral do Instituto Nacional de Formação Política (INFP) do Morena, a organização abriu espaço para pessoas interessadas no projeto político de López Obrador, mesmo sem intenção de disputar eleições ou participar da rotina partidária. “Somos uma grande frente progressista”, afirmou.
A transformação do movimento em partido ocorreu depois da eleição presidencial de 2012. López Obrador deixou o PRD em setembro, após divergências sobre o caminho da oposição. Em dezembro, PRD, Partido Ação Nacional (PAN) e Partido Revolucionário Institucional (PRI) firmaram o “Pacto por México”, que apoiou reformas do governo de Enrique Peña Nieto, incluindo a abertura do setor energético ao capital privado.
Depois de consultas à militância em assembleias pelo país, o Morena teve o registro aprovado pelo Instituto Nacional Eleitoral (INE) em 9 de julho de 2014.
O projeto político e os resultados
A direção do partido apresenta a chamada “revolução das consciências” como um projeto que pretende transformar conquistas de governo em convicções populares. A proposta associa o combate à pobreza, a defesa da soberania e dos direitos sociais a uma mudança na visão de sociedade.
Lemus afirma que a continuidade depende de militantes capazes de compreender as razões da luta política e de definir quem apoiar nas eleições. Para ele, o princípio de colocar os pobres em primeiro lugar precisa ser incorporado pela população, e não permanecer apenas como discurso partidário.
Os indicadores sociais são usados para medir o período de López Obrador. A parcela da população mexicana em situação de pobreza multidimensional era de 41,9% em 2018 e passou a 29,6% em 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi). A mudança correspondeu a uma redução de 13,4 milhões de pessoas.
Também houve aumento do salário mínimo geral, de 88,36 pesos diários em 2018 para 315,04 pesos em 2026. Segundo a Comissão Nacional dos Salários Mínimos (Conasami), o valor definido para este ano representa recuperação acumulada de 154,2% no poder de compra durante os governos da Quarta Transformação.
Na habitação, o programa Vivienda para el Bienestar prevê 667 mil moradias durante o mandato de Sheinbaum. A iniciativa estabelece a moradia digna como um direito, com investimentos equivalentes a 1,2% do PIB anual, expectativa de geração de 2,4 milhões de postos de trabalho e 766 projetos em andamento no país.
A retomada das ferrovias também se tornou uma marca das duas administrações. O Trem Maia, concebido no governo López Obrador e concluído sob Sheinbaum, percorre 1.554 quilômetros em cinco estados do sudeste. No istmo de Tehuantepec, foram reabilitados 308 quilômetros de trilhos entre Salina Cruz e Coatzacoalcos.
Saúde e segurança permanecem como obstáculos
Oscar Lemus aponta a saúde e a segurança como áreas em que as mudanças foram mais difíceis. Na saúde, ele relaciona os obstáculos ao desmonte neoliberal e aos efeitos da pandemia sobre os recursos e os planos do governo López Obrador.
Em 2024, o Inegi registrou falta de acesso aos serviços de saúde para 34,2% da população, o equivalente a 44,5 milhões de pessoas. Embora o indicador tenha melhorado em relação a 2022, a proteção social continua entre as tarefas pendentes.
Na segurança, Lemus relaciona a crise à guerra contra o narcotráfico iniciada por Felipe Calderón em 2006 e mantida durante o governo de Enrique Peña Nieto. “A militarização do combate às drogas aprofundou a violência sem eliminar as estruturas do crime organizado”, avaliou.
Em fevereiro de 2025, o governo de Donald Trump classificou seis cartéis mexicanos como organizações terroristas estrangeiras. A medida aumentou a pressão sobre o México e veio acompanhada de propostas de atuação militar dos Estados Unidos em território mexicano, rejeitadas por Claudia Sheinbaum. A presidenta defende que a cooperação contra os cartéis respeite a soberania do país.
A Quarta Transformação
O projeto de López Obrador define a Quarta Transformação como uma mudança conduzida por meios pacíficos e democráticos. A proposta busca reorganizar um Estado que, na avaliação do movimento, passou a atender às minorias, recolocando os pobres no centro das decisões.
As três transformações anteriores são associadas à Independência, iniciada em 1810 e concluída em 1821; à Reforma, liderada por Benito Juárez em meados do século 19; e à Revolução Mexicana, iniciada em 1910 contra a ditadura de Porfirio Díaz. A Constituição de 1917 é apresentada como expressão das reivindicações por terra, democracia e direitos trabalhistas.








