A vegetação nativa do Pampa brasileiro encolheu de 12,4 milhões de hectares, em 1985, para 8,6 milhões, em 2024. A redução foi de aproximadamente 3,7 milhões de hectares, ou 30%, conforme a Coleção 5 do MapBiomas Pampa Trinacional, que acompanha as mudanças no território ao longo de 40 anos.
Na porção gaúcha da região pampeana, a conversão de campos naturais para agricultura e silvicultura alcançou 3,9 milhões de hectares. O volume supera as perdas registradas na Argentina, de 3,7 milhões de hectares, e no Uruguai, de 2,9 milhões de hectares.
A região pampeana inclui o sul do Brasil, todo o Uruguai e parte da Argentina. No conjunto, foram perdidos 11,3 milhões de hectares de vegetação nativa, sendo 10,5 milhões de campos naturais. Restam cerca de 56 milhões de hectares de vegetação nativa, aproximadamente metade dos 109 milhões de hectares da área.
Agricultura e silvicultura avançam
O levantamento passou a incluir 2024 e fechou uma sequência de quatro décadas de dados. A atualização também corrigiu classificações e diminuiu lacunas nas áreas de fronteira entre os três países. No período analisado, a agricultura cresceu 33%, enquanto a silvicultura avançou 503%.
No Pampa brasileiro, a principal pressão veio do cultivo de soja. A área ocupada pela silvicultura aumentou de 44 mil hectares para 738 mil hectares, crescimento superior a 1.500%.
Na avaliação de Eduardo Vélez, pesquisador do MapBiomas, a mudança no uso da terra está ligada à rentabilidade e aos valores de mercado. Agricultura e silvicultura se tornaram mais competitivas do que a pecuária praticada sobre campos nativos, o que favoreceu a conversão dessas áreas.
“Faltam incentivos econômicos, incentivos tecnológicos e melhores arranjos das cadeias produtivas da carne”, afirma Vélez. Entre as alternativas citadas por ele estão o manejo do rebanho, a assistência técnica e a valorização da carne produzida em pastagens nativas.
Funções dos campos naturais
Os campos oferecem forragem diversificada e de baixo custo, sem depender de irrigação ou adubação. Quando manejados adequadamente, também podem se recuperar após eventos extremos. A vegetação contribui para reduzir a erosão, facilitar a infiltração da água no solo e regular as vazões de arroios e rios.
Essas áreas ainda servem de habitat para insetos polinizadores e outras espécies. O MapBiomas associa a conversão dos campos à perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos, como o controle da erosão e a regulação do ciclo da água.
Para Vélez, conservar o campo nativo também ajuda a enfrentar incertezas futuras relacionadas ao clima e às exportações de commodities. A vegetação retém água em períodos de excesso e libera umidade durante a seca. A substituição dos campos pode causar perda de solo e afetar espécies de distribuição restrita.
“Ela é uma garantia de futuro”, diz o pesquisador, ao destacar que a vegetação campestre está no Pampa há milhares de anos e atravessou diferentes extremos climáticos.
Medidas de conservação
Ainda restam cerca de 6 milhões de hectares de campos nativos no Pampa brasileiro. Para o pesquisador, esse estoque permite interromper as perdas e recuperar áreas. As medidas apontadas incluem o cumprimento da legislação ambiental, a criação de unidades de conservação de pequeno e médio porte, o incentivo à pesquisa sobre espécies do Pampa e o apoio à pecuária sustentável.
Vélez também defende sistemas de monitoramento e pagamentos por serviços ambientais para propriedades que preservem ou recuperem a vegetação nativa. A proposta é conciliar produção econômica e conservação, mantendo a atividade pecuária sem substituir necessariamente a biodiversidade.
A divulgação ocorre em 2026, declarado pelas Nações Unidas como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. O Pampa ocupa 109 milhões de hectares, cerca de 6% da América do Sul, e abrange a metade sul do Rio Grande do Sul, todo o Uruguai e parte da Argentina.
O mapeamento é produzido pelo MapBiomas Pampa Trinacional, rede que reúne especialistas dos três países. O trabalho utiliza imagens do satélite Landsat, com resolução de 30 metros, processadas na plataforma Google Earth Engine. Dados, mapas e métodos são disponibilizados de forma pública e gratuita.








